sábado, 7 de setembro de 2013

Uma questão de ritmo

Um tema que dá pano para mangas são as diferenças entre as duas famílias de origem de um casal. Pode não parecer o mais importante, e não é, mas pelo que tenho visto nalguns amigos é um dos factores que mais podem minar uma relação - já o Romeu se queixava! No nosso caso, felizmente, as diferenças são suaves e não há nada de muito estrutural. Diria até que há um certo paralelismo sociológico entre as famílias paternas e maternas de um e de outro.

Já diferenças de feitio há muitas, como é natural, e é giro dissecá-las em casal, mas não convém expô-las aqui à leitura de toda a gente, sob pena de perder o babysitting e os tupperwares no frigorífico! Mas há uma que, de tão objectiva e assumida por ambas as partes, salta à vista e não dá sequer polémica: uma diferença de ritmo!

Quem me conhece sabe bem que um dos meus maiores defeitos é a minha dificuldade (ou quase impossibilidade) em chegar a horas. Mas isto vem de um contexto... Na minha família, marcar hora para qualquer coisa é apenas uma vaga indicação de que é de manhã, à tarde ou à noite; não é para se levar à letra. Marca-se um almoço para as 2h, para as pessoas chegarem pelas 3h e estarmos sentados à mesa às 4h. Pode soar a exagero, mas é mesmo assim! Tudo sem stresses ou problemas de consciência, porque é um "código" que todos conhecemos e respeitamos. Se alguém se atrasa, é porque surgiu alguma coisa para fazer, e quem recebe fica agradecido porque também só começou a cozinhar e a arrumar a casa à hora que tinha dito às pessoas para virem.

Por seu lado, a família da Maria é o primeiro grupo de adiantados que conheci! A hora marcada funciona como o limite para se estar num sítio, e se nos atrasamos 5 minutos já estão a telefonar para saber onde andamos. Quando são festas em nossa casa, vêm mais cedo para ajudar nos preparativos, o que me apanha quase sempre com o banho por tomar e a roupa por trocar. Uma vez fomos passar um fim-de-semana em versão de família alargada (pais, avós, tios) e percebi que, para não os fazer esperar, tinha de comparecer a tudo 15 minutos antes da hora marcada.

O ritmo à mesa também é bem diferente. O gosto pelo convívio é o mesmo e a conversa flui de igual maneira nas duas famílias, mas os Albinos são de uma enorme eficiência na recolha dos pratos à última garfada, enquanto que nos Tavares pode haver um intervalo de meia hora entre o prato principal e a sobremesa, sem que ninguém estranhe. No lado da Maria, pelas dez, dez e meia, já está tudo a ir para casa, enquanto que do meu lado dificilmente se cantam os parabéns antes das onze da noite. Na semana passada, nos anos da Luisinha, os últmos convivas saíram de nossa casa à uma e meia da manhã... adivinhem quem!

Há algumas explicações possíveis, embora não esgotem o fenómeno. O avô materno da Maria é militar e o pai é um empreendedor, o que são percursos pouco dados ao engonhanço. Do meu lado, quase ninguém tem um horário de trabalho rígido a cumprir, pelo que a pressão do descanso é menor. Na família da Maria, os encontros são (pelo menos) semanais, o que torna esta dinâmica necessariamente mais rotineira e menos lazeira; na minha família, praticamente só nos juntamos nos aniversários, por isso tudo segue a lógica de "um dia não são dias" (a mesma lógica aplica-se ao teor calórico das sobremesas, que dava outro post).

Em resumo: para chegar a horas ao cinema, mil vezes os Albinos; para ir buscar a morte, que sejam os Tavares!
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