sábado, 25 de fevereiro de 2017

Amor de Mãe

Fonte
No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.
Herberto Hélder

A minha Mãe faz 75 anos.

Maria Isabel, como a mãe que cegara antes de a ver nascer e que perdeu aos sete anos. Perder é uma forma de dizer, porque na comunhão dos santos só há ganhos e o modelo da Avó foi e é bem presente.

Primeira menina depois de seis rapazes, ainda teve mais dez irmãos. Daqui resultaram 61 sobrinhos, 83 sobrinhos-netos e uns quantos sobrinhos-bisnetos. Primos também não faltam, porque o seu avô paterno já tinha sido pioneiro da prole "chapa 17" e pelo lado materno também não eram poucos. Esta abundância familiar, que não se esgota nos números, foi sobretudo uma escola de partilha e de atenção multiplicada, mais do que dividida. E ajudou a exercitar a proeza de saber de cor as datas de nascimento de meio mundo.

Estudou para professora primária na Veneza portuguesa. Ensinou três anos no Minho dos anos 60 e das sopas de cavalo cansado. Os pais iam à escola dar-lhe luz verde para bater nos filhos, mas não ia nessa conversa. Consta que deixou boas memórias, mas fartou-se e trocou Famalicão por Lisboa.

Por cá, conheceu um engenheiro ribatejano, namoraram 9 meses e passado outro tanto de terem casado nascia a primogénita. Dois anos depois, vinha um rapaz. Foi preciso esperar mais dez para vir a obra-pr... o benjamim. E "colocou-se na combustão dos filhos", a tempo inteiro. O tempo todo para nós, querem maior luxo? Por isso pude ficar em casa até aos cinco anos. Por isso pude gozar livremente tantas tardes na infância, sem outra "ocupação de tempos livres" que não fazer aquilo que bem me apetecia.

Estando disponível para nós a 100%, nunca nos prendeu. Sempre pudemos ir sozinhos para a escola, escolher as actividades e os estudos de que gostávamos, amar quem escolhemos, sem interferências. Nos anos que vivi em Londres, nunca fez da distância um drama. O horizonte das sua ambição para nós não é "deste mundo".

Sempre nos mostrou que a Fé é o mais importante. Foi catequista, orientou grupo de jovens, preparou noivos, esteve em grupos de casais. Fez amizade nos vários mosteiros onde passávamos férias e pela nossa sala de jantar passaram muitos padres. Quando foi possível, conquistou o seu cantinho em Fátima, onde sempre foi amiúde.

Não gosta especialmente de cozinhar e já delegou nos filhos o papel de reunir a família à mesa, mas continua a brindar-nos com o melhor bolo do mundo. O excesso de açúcar nunca foi drama lá em casa, ou não tivesse o próprio Abade de Priscos andado pela cozinha dos meus bisavós. Nunca acabava um doce sem me chamar para rapar o tacho, com o mesmo ar maroto com que hoje enche os netos de biscoitos.

Aos 75, continua fresca. Atenta a todos, agora ainda com maior alcance pela janela do Facebook. A cuidar do marido, adaptando-se ao seu ritmo. A cuidar dos netos sempre que precisamos. E a confiar-nos todos os dias nas mãos de Deus. Assim Ele a mantenha.

A minha Mãe faz anos. Mas a maior felicidade é nossa.

sábado, 31 de dezembro de 2016

2016 em balanço

No último dia do ano, ressuscito o Fio Mental para recordar tanto que tenho a agradecer em 2016.

O ano ficou marcado pela nossa viagem de 20 semanas pela América do Sul. Um projecto a que chamámos O Verbo Ir, com direito a blogue, Facebook e Instagram, e 17 artigos no Observador. Em 140 dias, visitámos 40 cidades na Colômbia, Equador, Peru, Chile, Argentina, Uruguai e Brasil. Tomámos banho nas águas quentes de Cartagena e do Rio de Janeiro, tiritámos a -17ºC no deserto de Atacama e brincámos na neve em Bariloche. Estivemos ao pé de lamas, baleias e pinguins, vibrámos com a vista de Machu Picchu ou das Cataratas do Iguaçu, mas no top das memórias ficaram-nos as experiências humanas: fomos recebidos em 11 casas, conhecemos primos no Rio, falámos com um dos famosos mineiros chilenos e passámos uma semana de sonho com grandes amigos na Colômbia. E tudo isto valeu sobretudo pelo privilégio de estarmos os quatro juntos, 24 horas por dia, durante tanto tempo.


Apesar destes meses de férias alargadas, foi um ano muito exigente a nível profissional. Abri uma empresa de traduções, a Trustlation, com o meu amigo Luís, e a experiência está a ser muito boa. Continuo a produzir o Lusofonias, o programa da FEC na Rádio Sim, onde entrevistámos mais 52 pessoas, como o Júlio Isidro, a Laurinda Alves ou a Secretária de Estado Ana Sofia Antunes. No primeiro semestre, fiz também as newsletters da FEC. Escrevi 9 artigos para a secção Nostalgia do Observador. Fiz um curso de blogues com o Arrumadinho e um curso de escrita de viagens com o Tiago Salazar na Palavras Ditas.


Nasceu a minha sobrinha e afilhada Benedita, o Pedro (Marlene e Paulo), o Filipe (Francisca e Thiago), a Maria Inês (Ana e Paulo), a Isabel (Sofia e Pedro), a Clarinha (Rita e Bruno), o Tomás (Diana e Pedro), o Lourenço (Joana e Vasco) e a Maria (Isa).  Pela primeira vez em muitos anos, não tivemos nenhum casamento (teremos em 2017!), mas fomos a três baptizados. Acompanhámos amigos nas duras despedidas de pais e avós. Fui com o Vasco ver o Sporting a Alvalade 15 vezes. Fui com a Maria ouvir António Zambujo e Miguel Araújo no Coliseu, e Ivete, D.A.M.A e Maroon 5 no Rock In Rio. Andámos com os miúdos de autocaravana, passámos um fim-de-semana no Algarve e outro em Fátima, com amigos. E continuo a visitar o Lar de Nossa Senhora da Vitória.

Que o ano de 2017 nos traga muitas oportunidades para sermos melhores e darmos mais de nós!

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Diá-Lu-gos #9

Lu: - Pai, para que é que serve a língua?
Eu ponho a língua de fora e explico: - Estás a ver estas pintinhas? Elas servem para ver se a nossa comidinha é doce, salgada ou amarga... É a língua que nos diz qual é o sabor dos alimentos.
Lu pensativa: - Ela diz... mas nós não ouvimos?!

sábado, 19 de setembro de 2015

Em Roma - programa cultural

Na quarta à tarde, tivemos direito a uma visita guiada pelo D. Carlos Azevedo aos Museus do Vaticano e à Basílica de São Pedro. Já lá tinha estado, mas com uma boa explicação de quem percebe do assunto faz toda a diferença!
D. Carlos Azevedo deu-nos uma lição de História de Arte
O grupo à porta da Basílica de São Pedro
Antes do jantar, parámos numa esplanada para retemperar forças com uma Peroni e brindar aos anos do Edgar, o nosso logístico em Bissau.
Fim de tarde em Trastevere
Jantámos na Trattoria degli Amici, um restaurante gerido pela Comunidade de Sant'Egidio, que integra pessoas com deficiência no seu staff - e serve uma óptima comida italiana a preços decentes. Juntaram-se a nós o Pe. Nuno Gonçalves, jesuíta, actualmente à frente da Faculdade de História da Universidade Gregoriana, que eu conhecia dos tempos em que orientou o grupo de CVX dos meus Pais, e o Attilio Ascani, director da FOCSIV, a congénere italiana da FEC.
Jantar na Trattoria degli Amici
Na quinta-feira, o meu avião partia ao início da tarde, por isso madruguei novamente para aproveitar a manhã ao máximo.
Na Praça de São Pedro
Na Piazza Navona
Na Via dei Portoghesi, onde fica a Igreja de Santo António dos Portugueses
Depois de muito andar, e seguindo os conselhos de quem lá vive, passei na geladaria Frigidarium para o merecido antídoto contra o calor húmido da cidade.
Tive de conferir se era mesmo a melhor geladaria de Roma
Antes de rumar ao aeroporto, fiz uma visita à Rádio Vaticana, que transmite o nosso programa Lusofonias. Foi bom dar um rosto às pessoas com quem troco e-mails semanalmente.
E assim foi esta visita de dia e meio à capital italiana!

Em Roma - a Audiência

O adeus do Papa aos leitores do Fio Mental
Todas as quartas-feiras de manhã, o Papa Francisco saúda os milhares de fiéis reunidos na Praça de São Pedro. É a chamada Audiência Geral. Através do Embaixador na Santa Sé, a FEC conseguiu um lugar especial, mais perto do Papa, para a sua delegação de 17 pessoas. Levámos-lhe como presente um kit de publicações que ilustram o trabalho da FEC, embrulhado em panos da Guiné-Bissau.
O presente para o Papa: publicações da FEC em panos da Guiné-Bissau
O dia começou muito cedo, com uma missa às 7h30 na Capela de Santa Mónica (mesmo à entrada da Praça de São Pedro), celebrada pelo D. Carlos Azevedo, o bispo português que é uma espécie de "vice-ministro da Cultura" do Vaticano.
Missa na Capela de Santa Mónica
Fomos depois tomar os nossos lugares junto ao palco montado à porta da Basílica de São Pedro.
A entrada do grupo na Praça de São Pedro
Uns minutos antes das 10 horas, o papamóvel deu umas voltas pelo meio da multidão reunida na Praça de São Pedro.
O papamóvel dá uma volta pela multidão reunida na Praça de São Pedro
O Papa Francisco saúda os fiéis na Praça de São Pedro
Nessa altura, alguém referia aos microfones os vários grupos presentes na Audiência, incluindo a delegação da Fundação Fé e Cooperação.
A Equipa FEC em festa quando a sua presença é anunciada nos microfones
(e um sósia do famigerado Padre Frederico...)
O Papa fez então uma curta catequese sobre a família, a poucas semanas do Sínodo sobre o tema.
Durante a catequese
No final da catequese, o Papa Francisco dirigiu-nos (em italiano) uma saudação especial:
«Saúdo os peregrinos de língua portuguesa presentes nesta audiência, e através de cada um de vós, saúdo a todas as famílias dos vossos Países. Dirijo uma saudação particular aos membros da Fundação «Fé e Cooperação» de Portugal e aos grupos de brasileiros. Deixa-vos guiar pela ternura divina, para que possais transformar o mundo com a vossa fé. Deus vos abençoe.»

Junto a nós estava um grupo vindo da China, onde a Igreja ainda é clandestina e a liberdade religiosa uma miragem para os estimados 8 milhões de "católicos clandestinos". O Estado chinês só admite uma "Igreja oficial", com bispos designados pelo Governo, por isso estes turistas que vieram ao Vaticano arriscam-se (segundo os próprios me contaram) a sofrer represálias quando voltarem ao seu País.

Seguiram-se os cumprimentos do Papa aos representantes dos vários grupos presentes e também a dezenas de noivos que ali estavam.
Jorge Líbano Monteiro (Presidente do Cons. Administração), Frederico Magalhães (vogal do Cons. Administração)  e Susana Réfega (Directora Executiva) entregam ao Papa os presentes da FEC

Estava uma manhã de calor (30ºC), apenas cortado pelo vento, mas nem por isso o Papa se apressou nos cumprimentos e na conversa com cada um. No total, levou nisso hora e meia. À distância a que estávamos, uns 10 metros, gritámos-lhe que o esperávamos em Portugal e cantámos em modo repeat o Avé de Fátima.
Sempre bem disposto, depois de hora e meia de cumprimentos

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Em Roma

Quarta vez em Roma. A primeira foi nas Jornadas Mundiais da Juventude, em 2000, uma óptima experiência mas da cidade pouco vi. Na segunda, em 2002, desforrei-me e estive uma semana inteirinha (valiam-nos as férias de universitários) em que vi quase tudo, incluindo João Paulo II à distância de um braço. Na terceira, grávidos da Luísa, vim com a Maria visitar um primo a Florença e ficámos cá um par de dias à chegada e à partida, com direito a participar na beatificação de JP2. Desta vez, vai ser uma visita-relâmpago de menos de 48 horas: a FEC (www.fecongd.org), de cuja fantástica equipa faço parte desde 2009, faz 25 anos e conseguiu lugares especiais para a Audiência desta quarta-feira; quem quisesse aproveitar a oportunidade, vinha à sua custa (que no mundo das ONG não há cá pão para malucos), e o facto de termos vindo 17 (e os que não vieram foi só porque não podiam mesmo) diz muito sobre o gosto de fazer parte desta família. Uma família da qual também faz parte a minha irmã, que faz a gestão financeira dos projectos.

Aterrei quase à meia-noite em Ciampino. A Ryanair não só voa a menos de metade do preço da concorrência, como voa para um aeroporto que é mais próximo do centro do que Fiumicino e que obriga os aviões que lá pousam a sobrevoar o centro histórico. Não há melhor introdução do que ver do céu a bela Roma iluminada! Como o aeroporto era mínimo e eu só trazia uma mochila, demorei literalmente 5 minutos entre a porta do avião e a carrinha do transfer que me trouxe em meia hora até às portas do Vaticano. À hora que cheguei já não havia transportes públicos, mas o bom Google arranjou-me uma solução três vezes mais barata que vir de táxi. "Ah e tal, mas isso é seguro?" - muito receio tem a malta... por algum motivo fui o único a vir na Ryanair, cuja frota tem uma idade média muito inferior à da TAP e nenhum acidente para contar. Mas eu sou da onda do "non abbiate paura", dito nesta mesma cidade em 1978, e gosto de levar esse lema das coisas mais profundas às mais triviais.
Estamos instalados no Colégio Português, onde vim jantar em 2002 com o Pe. Rui Rosmaninho e onde o meu irmão viveu uns tempos. Está um calor húmido insuportável, o único senão nesta cidade lindíssima onde - vou dizer baixinho para a Maria-sempre-pronta-a-bazar não me ouvir - até me imaginaria a viver.

E agora chega de conversa, que amanhã o dia vai ser cheio e começa logo às sete da matina!

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Bodas de madeira

Um lustro. Cinco aninhos. O melhor dia para casar. Dia de Santo Inácio de Loyola. Não nos cansamos de rever o resumo de um dia tão feliz.

Éramos 218 nesse dia. Entre os presentes, tivemos desde então 9 casamentos e 60 nascimentos (e mais 8 a caminho), mas também 9 pares desfeitos e 3 mortes.

Dizem que estas são as bodas de madeira, mas ainda não temos caruncho. Nem fazemos tábua rasa do que então prometemos. Temos sempre gosto em receber à nossa mesa. Continuamos a gostar do verbo "ir" (temos bicho-carpinteiro) e danados para a brin-cadeira.

Hoje vamos festejar ao som destes dois senhores:

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Força, Nuno!!

O meu amigo Nuno España gosta de desafios. Correu a primeira maratona há três anos e nunca mais parou. Passou das maratonas para as ultramaratonas e fez a mítica Comrades da África do Sul - uns meros 89 quilómetros! Seguiu-se o desafio do IronMan - um triatlo com 3,8 kms de natação, 180 kms de bicicleta e 42 kms de corrida - que completou em Frankfurt há um ano.

É já este sábado que o Nuno vai fazer aquele que muitos consideram o triatlo mais díficil do mundo, o Norseman, na Noruega. Com outros 235 malucos (é o único português na prova), vai saltar de um ferryboat para nadar 4 kms num fiorde, onde a água está a 11ºC. Seguem-se 180 kms pelas montanhas, com grandes subidas. Por fim, uma maratona, cujos últimos 17 kms são uma subida em trail à montanha de Gaustatoppen - um final tão duro que são obrigados a levar um acompanhante, neste caso o fiel amigo Pe. Ismael.

Para terem ideia do que é a prova, vale a pena ver este vídeo:

A maioria de nós não percebe o que leva uma pessoa a meter-se nestes trabalhos. Ele lá saberá o sentido que tem. Mas quis dar também um sentido no qual todos pudéssemos participar, e com o seu esforço está a mobilizar donativos para a Casa das Cores.

Convido-vos a espreitar a campanha em http://ppl.com.pt/pt/causas/casa-das-cores e a acrescentar qualquer coisinha.

Sábado vamos estar todos a torcer pelo Nuno, e o melhor incentivo que lhe podemos dar é fazer crescer o valor angariado!

domingo, 26 de julho de 2015

Diá-Lu-gos #8

Quando lhe mostrei o carro exótico em que os noivos tinham ido na véspera da igreja para o copo d'água (o raro BMW Isetta), a Luísa perguntou-me:
- Mas porque é que as pessoas bateram palmas ao Tio Jaime e à Tia Maria Ana quando eles iam no carro?
Balbuciei um início de explicação («então, foi porque eles...»), mas logo fui interrompido pela sua descoberta cheia de entusiasmo:
- Ah, já sei! Foi porque eles foram felizes para sempre!!
Assim sejam.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Há 10 anos, em Londres

Há dez anos, eu vivia em Londres, numa residência em Bloomsbury, e o meu quarto tinha vista para a Tavistock Square. Em Maio e Junho, quando estudava para os exames do Mestrado, saía sempre de Passfield Hall entre as 9h30 e as 10h, e caminhava até à biblioteca da LSE. Logo à saída da residência, atravessava todos os dias a passadeira que podem ver abaixo, junto à qual uma bomba foi detonada num autocarro, às 9h47 do dia 7 de Julho.
O atentado de Tavistock Square matou 13 pessoas que iam neste autocarro
Mas, poucos dias antes, terminados os exames, tinha mudado dessa residência para outra, muito perto, onde passaria os meses de Verão. A Commonwealth Hall ficava a 400 metros da estação de metro de Russell Square, onde outra explosão matou 26 pessoas.

Eu estava de férias em Portugal. Vim descomprimir após os exames, acompanhar o nascimento do meu sobrinho João e mostrar a minha terra a cinco amigos estrangeiros. Estávamos repimpados na praia quando comecei a receber mensagens de amigos a saber se estava bem. Melhor não podia estar! Rapidamente verificámos que os amigos que tinham ficado em Londres também estavam bem (os que estavam na residência ouviram a explosão do metro) e passámos o resto do dia de olhos postos na televisão, chocados e incrédulos.

O meu cunhado Fernando, que eu ainda não conhecia na altura, saiu do metro cinco minutos antes da explosão na estação de Aldgate, junto ao seu emprego. Aí morreram sete pessoas, na de Edgware Road mais seis.

Poucos dias depois, voltei a Londres e fui metendo o meu nariz de aspirante a jornalista nas zonas afectadas, por onde passava todos os dias (lembras-te, Raposo?). Multiplicaram-se as manifestações de solidariedade. Houve mais ameaças de bomba, desmanteladas a tempo. Mas o que mais me impressionou foi o business as usual da resiliência britânica - com o slogan We Are Not Afraid, os londrinos não cederam ao medo e continuaram a usar os transportes públicos. E eu fiz o mesmo. Essa é a melhor reacção que se pode ter ao terrorismo. Londres é e será sempre uma grande cidade!

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Nós também somos Nepal!

A 25 de Abril, o Nepal sofreu um enorme terramoto, cuja devastação todos vimos na televisão. Chamou-me a atenção, pela dimensão da tragédia, com 8 mil mortos, e porque ainda tinha fresca na memória a viagem recente de duas amigas, que voltaram conquistadas pela simpatia daquele povo.

No próprio dia, levado pelos "likes" e partilhas de amigos meus no Facebook, cheguei ao primeiro post feito pelo Pedro Queirós após o terramoto. Não só o Pedro era "amigo de amigos" (esta categoria de relação própria das redes sociais), como a cara do amigo que com ele partilhou o susto, Lourenço Macedo Santos, me era familiar lá da Costa - na adolescência demos mergulhos e bebemos copos nos mesmos sítios. Além destas afinidades, a curiosidade de ter notícias do terreno em primeira mão fez-me continuar a seguir os relatos que o Pedro ia pondo na sua página.

Mas rapidamente a minha curiosidade se transformou em admiração. Primeiro, o Pedro e o Lourenço resolveram pegar no seu dinheiro e comprar alimentos para distribuir pelos desalojados num parque. Motivados pelo impacto dessa acção e pelos donativos que começaram a receber de Portugal, abdicaram do vôo que tinham marcado e decidiram ficar. Tinha nascido a campanha Obrigado Portugal, nós também somos Nepal.

Com a ajuda de aliados locais, começaram a levar grandes quantidades de comida a aldeias remotas onde foram a primeira ajuda a chegar. Horas de viagem, sentados em sacos de arroz em carrinhas de caixa aberta. Depois, construíram em Katmandu um campo para pessoas que tinham sido deslocadas de uma aldeia distante - o Campo Esperança, que se está a tornar num case study. Na última semana, começaram a construção de casas numa aldeia, com a ajuda de arquitectos conhecedores de técnicas resistentes a sismos - já vários voluntários se juntaram entretanto ao projecto. Todas estas conquistas foram relatadas diariamente, com o detalhe das despesas e muito humor. Dá para nos sentirmos lá também. Até porque a bandeira portuguesa está sempre presente, de mãos dadas com a nepalesa.

Quando soube que vinham a Portugal matar saudades e, sobretudo, divulgar a causa, tratei logo de os convidar para uma entrevista no Lusofonias. Como já tinham acertado uma entrevista com o Ricardo Conceição, da Renascença (passou ontem em directo) e a "casa" era a mesma, unimos esforços e vamos retransmitir essa conversa na Rádio Sim.
No estúdio da Rádio Sim (102.2 FM). A entrevista passa no dia 20, às 14h.
Pessoalmente, foi um privilégio poder passar a tarde de ontem com eles, acabadinhos de aterrar em Lisboa, e ouvir de viva voz os pormenores das histórias que há mês e meio sigo pelo Facebook. O entusiasmo e a entrega do Pedro e do Lourenço são inspiradores. O período sabático que tinham destinado a viajar deu lugar a este trabalho inesperado, que lhes tem preenchido e ensinado muito. Pelo menos até ao Natal, e enquanto tiverem fundos para investir nestes projectos, vão continuar no Nepal. E os resultados são brutais: cerca de 50 mil pessoas com ajuda imediata (alimentos e tendas, sobretudo), um campo que alberga 327 pessoas (com tenda médica e tudo) e duas casas quase construídas na vila de Chapagaun (com direito a reportagem na tv nepalesa).

O Lourenço e o Pedro a verem a reportagem da tv nepalesa sobre as casas que estão a construir.
Quem quiser juntar-se à causa, pode seguir a página da campanha no Facebook, fazer um donativo para o NIB abaixo ou promover uma angariação na sua família ou no trabalho, ou meter-se no avião para lhes ir dar uma mãozinha (mas só a partir de Julho!).

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Diá-Lu-gos #7

Depois de um dia de mau comportamento e desrespeito à autoridade, na escola e na natação (anda fresca...), aproveitámos o jantar para dar uma ensaboadela à Luísa sobre como é importante fazer o que os pais e professores dizem, para ser uma boa menina e não correr riscos desnecessários.
No fim da conversa, chegaram as perguntas:
Lu: - Quem é que manda na escola?
Mãe: - São as professoras.
Lu: - E quem é que manda em casa?
Mãe: - São os pais.
A Luísa pensa dois segundos, e pergunta:
- ...e quando as professoras vêm visitar?

quarta-feira, 8 de abril de 2015

O Manel faz ano!

Faz hoje um ano que a Maria resolveu brincar à "parturiente em fuga" e me deixou em casa a dormir, até ser acordado por um telefonema das Urgências a dizer que era melhor ir depressa porque o Manel estava quase a nascer. Como cheguei a tempo e correu tudo bem, consegui perdoar-lhe no próprio dia e ficámos com uma história cómica para contar.


Ao segundo filho, se por um lado há mais trabalho (porque é preciso cuidar de dois), por outro há mais experiência e menos preocupação. O Manel foi para o infantário mais pequeno, aos seis meses, e por isso estranhou menos; salta com um sorriso para o colo das educadoras, embora num dia ou outro ponha pose de Senhor Sério (que também tem o seu charme). Tirando a farfalheira constante e uma pele muito sensível, não nos tem dado preocupações de maior, graças a Deus. Já foi a Londres e já cruzou Portugal do Minho ao Algarve.


Na hora da refeição, é um regalo vê-lo abrir a boca para comer tudo o que lhe pusermos à frente. Ou talvez seja um pouco aflitivo ver a sofreguidão com que devora tudo, como se não comesse há meses, o desespero quando paramos de lhe dar por uns segundos e o desconsolo quando vê que já não há mais - ora toma lá mais um bocadinho de pão para te calares... 
Já tem seis dentes, já come fruta aos gomos e continua a mamar um par de vezes ao dia.

Na sua pose preferida
Gatinha depressa, levanta-se e anda agarrado a tudo - aos móveis, ao andarilho, às nossas pernas - , arrasta cadeiras se for preciso, mas ainda não arrisca ficar de pé "sem mãos" nem um segundo. Diverte-se a atirar coisas para o chão: canetas, livros, o que houver. Gosta de tocar xilofone e tambor, e até já fez uma incursão nas guitarradas familiares.


Diz olá, mamã, papá, mana e banana, mas só quando lhe apetece. Gosta de acordar a mana de manhã com umas suaves pancadonas, e ainda mais de lhe puxar os cabelos; em troca, ela pega-lhe ao colo e larga-o no chão como se fosse um boneco, o que vale é que ele ainda é meio de borracha. E um borracho!
Parabéns, Manel!

domingo, 5 de abril de 2015

Esta é a noite

"Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé", escreveu São Paulo. Por muitos ensinamentos que retiremos dos três anos de pregação pública de Jesus e por maior que tenha sido a Sua entrega na cruz (levando na d'Ele as nossas), a ressurreição é o busílis do nosso credo. Acreditar nos que dela fizeram eco levou muitos dos primeiros cristãos ao martírio, como ainda hoje no Médio Oriente. Acreditar nela é o que faz de mim cristão. Para quem nela acredita, esta é a noite maior do ano.

Claro que simpatizo com a ideia de festejar os grandes momentos da fé com overdoses de açúcar - para mim, está perfeitamente alinhado e alimenta a devoção. Mas, além da excitação da caça aos ovos de chocolate, consegui fomentar na Luísa a expectativa de irmos à "missa do glória a Deus", leia-se a vigília pascal do CUPAV, aonde já a tinha levado no ano passado. O "glória a Deus" é o cântico batucado que acompanha o acender das luzes (o início da missa é às escuras) que assinala a passagem do Antigo para o Novo Testamento, e é a música beata preferida da Luísa. Este ano já lhe expliquei o que era a ressurreição de Jesus, com a mesma naturalidade que não lhe escondo o que é a morte.

A vigília pascal é tradicionalmente quando se faz o baptismo de adultos, e ontem o meu amigo Pe. José Pinheiro acompanhou uma paroquiana que foi baptizada pelo Papa Francisco, o que é também digno de nota! Uma Santa Páscoa a todos!

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Ainda me parece mentira

Desde miúdo que gosto do Herman. Via os programas todos e repetia-lhe os chavões. Enchi cassetes e cassetes VHS com os seus melhores momentos. Na fase mais doente, guardava numa caixa todas as suas entrevistas, cheguei a ir pôr uma carta à casa de Azeitão e deixei-lhe dezenas de mensagens no gravador de chamadas - até ao dia em que ele atendeu e me convidou para ir assistir a uma gravação d'A Roda da Sorte, o que acabámos por nunca operacionalizar.

Desde adolescente que digo que gostava de ser jornalista (antes disso quis ser Papa e produtor de televisão). Fintei o caminho mais directo e estudei Direito e Política Social. Nos últimos anos, voltei a aproximar-me: há cinco anos que escrevo um programa radiofónico de entrevistas e no fim de 2014 fiz um mini-curso de introdução ao jornalismo. Foi aí que começou uma conversa com o João Miguel Tavares, depois reatada no infantário, em que ele me desafiou a escrever umas coisas para a nova secção de Lifestyle do Observador, dentro dos subtemas Nostalgia e Família. O João foi o Júlio Isidro da minha carreira no jornalismo!

A série espanhola "Verão Azul" foi o mote para o meu artigo de estreia, cuja recepção emotiva no Facebook rendeu 4 mil partilhas e 14 mil leitores. Seguiu-se outro artigo sobre terrores nocturnos e dois sobre o Festival da Canção, que me deram gozo a escrever mas tiveram resultados muito abaixo do primeiro. Lembrei-me então que o Herman estava a fazer anos, que teria graça fazer um apanhado dos melhores momentos da sua carreira e que, com sorte, talvez ele até lesse - mas claro que isto era só um wishful thinking.

Há duas semanas, lá saiu o artigo. Uma hora depois, o próprio Herman partilhava o link da "fantástica súmula" na sua página do Facebook:
Para além do que significava para um grande fã como eu, esta partilha teve um notável efeito multiplicador que ninguém preveria: o artigo chegou às 30 mil partilhas, 112 mil leitores e 208 mil visualizações - qualquer coisa como 6 vezes o total de visualizações que este blogue teve em 7 anos!
Durante 3 dias, esteve no top dos artigos mais populares do Observador.
Claro que fiquei muito contente com este pico de audiências, mas mais ainda por ter sido responsável por uma enorme vaga de "boa onda" - mesmo quem já não gasta do Herman, gostou de lembrar os seus melhores momentos. E ao Herman, com todas as suas virtudes e defeitos, devemos uma revolução na maneira de fazer humor no nosso país. Talvez um dia ainda o consiga entrevistar! 

Por agora, e assim que despachar uma tradução, tenho mais uma mão cheia de artigos para escrever e também aceito sugestões de coisas da nossa infância que gostassem de ver recordadas.

sábado, 21 de março de 2015

Los Amados rock!

O João foi meu colega na FEC. Casou com a Rosa um ano antes de nós casarmos, e já nos estão a dar uma cabazada de 4-2 em filhos: o Manel tem 4 anos, o Zé Maria tem 2, a Tânia é uma «filha que nasceu do coração» e tem 19 anos, e o Xavier está para nascer por estes dias. Há cerca de um ano criaram o blogue Los Amados, onde contam o dia-a-dia da sua família.
www.amadosrock.blogspot.pt
Na segunda gravidez, souberam que o filho tinha um cromossoma a mais. O nosso ADN é formado por 23 pares de cromossomas, e o do Zé Maria tinha 3 cromossomas no par 21. Eu soube disso por um amigo comum: «mas eles vão ter na mesma, acho que é por serem católicos» (assim tipo "coitados, não tiveram outra saída"). O raciocínio tinha a sua lógica, embora em Portugal, onde 81% nos dissemos católicos nos últimos censos, se estime que 95% dos diagnósticos de trissomia 21 terminem em aborto.

Como a Rosa hoje conta no blogue, foi a partilha de outra mãe que a tranquilizou, poucos dias antes de ter a confirmação do diagnóstico: ia estar tudo bem. O blogue deles nasceu dessa vontade de partilhar com outras famílias que cada filho tem os seus desafios, que nem tudo é fácil todos os dias, mas que, no essencial, está tudo bem. E o Zé Maria, que é um amor, já deu a cara na campanha do ano passado da associação Pais21.

Hoje é o Dia Mundial da Trissomia 21. Convidei a Rosa e o João para darem o seu testemunho no programa Lusofonias, que passa às 14 horas na Rádio Sim (102.2 FM em Lisboa, 100.8 FM no Porto). Também os podem conhecer melhor nesta reportagem do programa "Consigo" da RTP. Eles não querem ser modelo de nada, insistem que são mais normais que a maioria das famílias, mas para mim estes amigos são um exemplo e um orgulho.