quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Memórias de Alvalade e um par de botas

O meu sportinguismo vem da família paterna. O meu avô fez-me sócio em miúdo e levava-me com frequência ao estádio, aí entre os meus 6 e 12 anos. Tinha lugar cativo na central, com o filho e a filha, os meus tios. Já o meu pai, leão avesso a multidões, preferia ficar a sofrer em casa.

O meu tio Mário era caçador e levava o filho para a caça e para o futebol. Lembro-me que muitas vezes calçavam umas botas alentejanas, pai e filho a fazer pendant, e eu, que sempre fui como a Maria Nabiça ("tudo o que vê, cobiça"), cobiçava-lhes não só as botas, mas - entendo-o hoje - sobretudo a cumplicidade, a mesma com que acelerava nos túneis do Campo Grande só para nos provocar aquele pico de emoção. Não que o meu pai alguma vez me tenha faltado em amor e ajuda, nada disso, mas era mais de estar fechado nas suas "cavernas", e não tanto do estilo compincha que eu via no meu tio e nos pais dos meus amigos (quase todos 10-15 anos mais novos que o meu).

[Parêntesis "isto anda tudo ligado": Por essa altura, na chunguíssima (mas divertidíssima) escola da Trafaria, lembro-me de ver no recreio o meu colega de catequese Fred com um amigo, e de reparar neste: "tem umas botas iguais às do meu primo". Um par de anos depois, tornámo-nos melhores amigos, e somos há 20 anos companheiros de sofrimento em Alvalade.]

A vida deu muitas voltas. O meu tio morreu novo, e aí acabaram-se as idas ao Sporting em família. O meu avô ainda viu o Sporting ser campeão, após longo jejum, em 2000 (na noite dos festejos, a minha primeira paragem foi em sua casa); quando morreu, no ano seguinte, herdei-lhe uma gravata e um alfinete do Sporting, que nunca usei mas guardo religiosamente. Boa parte dos pais compinchas dos meus amigos desertaram para mulheres mais novas e as relações com os filhos esfriaram. O meu pai, a completar agora três quartos de século, continua igual ao que era: não se tornou mais compincha, mas em várias ocasiões mostrou estar atento e deu conselhos certeiros; compreendo-o hoje mais do que antes, e espero ainda ir a tempo de uma aproximação que também o faça compreender-me melhor.

Quando andava na Faculdade, lá comprei umas botas alentejanas na Feira da Golegã. Mas, como nada me liga ao Alentejo, ao campo ou aos cavalos, raras vezes as uso. Digamos que já estiveram mais na moda (se é que...) e que tenho outras mais práticas para dias de chuva. Até porque cada vez me custa mais enfiar no cano a barriga da perna (as botas encolheram, só pode!). Mas em dias de jogo, como hoje, num estádio que já é outro, gosto de juntar as botas à farda - roupa verde e cachecol - e assim avivo um pouco as memórias das tardes felizes do clã Tavares na central do velhinho Estádio José de Alvalade.
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