sábado, 16 de outubro de 2010

O meu BB

Ainda estou com o coração nas mãos desde que ontem abandonei o meu BB para ir morrer numa qualquer sucata. Teve de ser, por razões de ecologia e economia. O último ano já foi cheio de gastos parvos (travões, pneus, canhão...) e para o pôr em condições de passar na inspecção ia ser outra pipa de massa. Há 1 ano que o limpa-pára-brisas tinha deixado de funcionar. E há muito que quando chovia ficava uma poça aos meus pés. E nos últimos dias ele apitava (o tinóni de aviso quando se tira a chave da ignição com as luzes acesas) sempre que eu carregava no travão. Enfim...
Mas fiquei com pena pelas muitas memórias que lhe associo. Foram 18 anos na família! Primeiro foi o carro dos meus pais, algures entre o meu 7º e 11º anos; levava-me semanalmente às aulas de piano e foi-me buscar às primeiras saídas à noite. Depois passou para a minha irmã e chegou a viajar com eles até Inglaterra, de ferry, para viver uns meses em York; lembro-me de fazermos uma viagem para o Algarve, já com a primeira sobrinha nascida, em que não sobrava espaço livre, a ponto de eu não conseguir ver os outros ocupantes e o meu cunhado guiar com coisas no colo. Quando eles já não precisaram mais dele, tiveram a generosidade de mo oferecer. 
Foi o meu primeiro e único carro, só meu, acompanhou-me dos 20 aos 30 anos. A segunda metade da Faculdade, as voltas do MSV (tantas vezes fez o caminho para Alcoutim...), a histeria do Euro 2004, os passeios pelo País com os amigos de Londres... Nos últimos tempos já era gozado por todos, desde o mecânico aos meus amigos que tinham medo de andar nele. E de facto estava a ficar perigoso, apesar de o motor estar ali para as curvas. Ainda em Junho tínhamos dado 165km/h na auto-estrada. No dia seguinte, rebentou-lhe um pneu e percebi a imprudência da véspera. Era como um velhote com o corpo muito enfraquecido e o coração forte.
Além disso dava-me um certo orgulho contracorrente andar com ele! Pelo anti-consumismo de "se este funciona, para quê trocar por outro?" (sou consumista em roupas e sapatos, mas carros nunca foram a minha praia). Pela despreocupação de poder entrar com ele em qualquer tipo de terreno, porque "pior não vai ficar". E acho que sobretudo por esta continuidade de já ter passado por todas as mãos da família.
Enfim, paz à sua alma, também não nos vamos apegar a objectos. Agora desloco-me num brinquedo a 2 rodas, também mais retro que moderno, e tem sido um regalo rolar por Lisboa com o vento na cara; há que guardar um bocadinho de adolescência para ir usando ao longo da vida, não é? E temos, já nesta fase plural da vida, um utilitário daqueles iguais a todos os outros, com ar condicionado e auto-rádio a funcionar e tudo, que nos tem dado muito jeito para transportar os móveis do Ikea, as compras do Continente e, se Deus quiser, quando dermos por nós estamos a inscrustar-lhe uma cadeirinha Chicco.
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