terça-feira, 29 de outubro de 2013

Mariela

Conheci-a quando estudávamos em Londres. A Mariela estava no Master de Desenho Urbano do Braulio e da Nayan, meus amigos na residência e futuros flatmates, e eu ia a bastantes programas com a turma deles.
Quando fomos morar para o nosso cantinho em Camden, a Mariela e a mãe (de visita) visitaram-nos e prepararam umas típicas empanadas chilenas. Se a memória não me falha, ela até terá ficado em nossa casa nos últimos dias antes de regressar ao Chile.
2 Outubro 2005
No fim de 2007, quando deixei Londres, passei 2 meses a viajar pela América do Sul e estive no Chile por alturas do Natal. Entrei pelo extremo norte (Atacama) e voei até ao sul, para passar 3 dias com a Mariela na ilha de Chiloé. Num dia muito especial, aqui descrito em detalhe, andámos com o alcaide e o Pai Natal a visitar as crianças das ilhas mais isoladas; no final do dia, a Mariela e eu vimo-nos sem transporte num lugarejo onde só havia um café e tivemos de ir à boleia na caixa de uma furgoneta de distribuição de comida, fartámo-nos de rir!
Até aos 27 anos eu era um totó que não comia marisco porque me metiam nojo os bichinhos. Foi a Mariela quem me forçou a comer um prato de curanto em Ancud, e desde então passei a gostar de marisco; devo-lhe também isso.
Montagem da Mariela sobre a visita a Chiloé (20 Dezembro 2007).
Infelizmente a minha máquina tinha pifado e não tenho fotografias destes dias.
Um ano depois, estávamos novamente juntos, desta vez em Bombaim, para o casamento da Nayan. Foi aqui que a Maria a conheceu. Passeámos bastante pela cidade e vestimo-nos a rigor para a festa. Umas semanas depois, encontrámo-nos ainda em Londres para um serão com a mesma grupeta.
Bombaim, 21 Dezembro 2008
Londres, 16 Janeiro 2009
Novo casamento, novo encontro. Desta vez foi o nosso, a que a Mariela disse logo que viria. E veio. Ficou até a dormir em casa dos meus pais e tirou-me, à saída para a igreja, uma fotografia emblemática. Na festa, fizemos uma entrega de Óscares para agradecer a alguns convidados, e a Mariela ganhou o "Óscar para quem veio de mais longe". E foi a última vez que nos vimos.
Bairro Alto, na véspera do casamento
Em casa dos meus pais
A foto simbólica da saída do lar paterno 
Óscar para a amiga que veio de mais longe
No início deste ano anunciou que estava à espera de bebé. O seu Maximiliano nasceu em Abril, prematuro de 7 meses, porque aos 3 meses de gravidez a Mariela tinha sido diagnosticada com um cancro no fígado, e teve de quis adiar os tratamentos mais fortes até ao filho poder nascer. Sempre que falámos ao telefone nestes meses, o que irradiava era essa alegria de mãe e a preocupação com o seu Maxi (que ficou bem de saúde), mais do que as queixas sobre a sua própria doença. E esse testemunho de coragem tocou-me profundamente.
A Mariela era muito "para a frente": fundou uma ONG que promove a regeneração urbana de bairros mais pobres a partir da participação dos próprios cidadãos; dinamizou a utilização das bicicletas no município onde trabalhava; aproveitou intercâmbios de urbanismo em vários países; e como podem ver acima, tinha gosto em ir a todas. Era uma pessoa com um dom especial para congregar os amigos à sua volta, sem querer protagonismo, aliás de uma simplicidade enorme.
Há 3 semanas escreveu-me a dar os parabéns, com umas palavras tão queridas, e em resposta contei-lhe que estávamos à espera de novo bebé.

Partiu ontem. Além das saudades, deixa-me estas memórias (que acredito um dia vir a revisitar com ela, noutro poiso) e sobretudo um tremendo exemplo de vida.

sábado, 26 de outubro de 2013

A Cantina Hindu

Há 5 anos, fomos a um casamento indiano. Foi uma experiência única, com direito a trajes típicos comprados para a ocasião e rituais completamente diferentes dos nossos. Além de termos um grande carinho pelos noivos - em especial a Nayan, com quem tinha partilhado casa - e pelos seus pais, o que nos fez viver esses dias com grande emoção, tivemos o privilégio de ser convidados para o "pacote completo" dos festejos, por termos ido de tão longe. Ou seja, 5 dias seguidos de festas!
O dia do casamento religioso foi o mais exuberante nas roupas e o mais sóbrio nos manjares, como que a sublinhar que o essencial naquele dia não era encher a pança (nos dias seguintes houve discoteca com bar aberto e banquete num hotel). Depois de uma lindíssima cerimónia hindu, que pouco percebi por ser em hindi, mas que se centrava muito na entrega de cada noivo feita pelos seus pais e irmãos aos seus novos sogros e cunhados, foi servido um almoço na cantina do templo. Sóbrio mas muito delicioso, apresentado ao estilo das refeições tradicionais naquele país: uma bandeja redonda com sopa, dal, arroz, molhos e os pãezinhos achatados.
21 Dezembro 2008, Chinmaya Mission Temple, Mumbai
Passados 5 anos e após várias incursões a restaurantes de chicken tikka massala e afins, tivemos esta semana uma experiência que nos lembrou essa refeição. Tinha lido algures a recomendação à Cantina do Templo Hindu em Lisboa, e como estávamos em Telheiras lembrámo-nos de lá dar um salto. Chegámos ao local e parecia abandonado - o templo fechado, uma série de construções por acabar e um ar pouco cuidado - mas uns jovens que ali estavam indicaram-nos o caminho. Descemos umas escadas e descobrimos, por fim, a Cantina.
Uma sala simples, com quadros das divindades hindus e umas mesas de snooker ao fundo. Em cada lugar estava já uma bandeja redonda de metal, com 2 tacinhas, e um copo também de metal. Num português pouco fluente, mas sempre com um sorriso, a senhora mostra-nos a mesa de buffet com uma fantástica sopa de lentilhas, dal de feijão, outro dal de batata, umas bolinhas fritas de lentilhas, arroz "para asmáticos", paparis e chapatis, e 3 molhos de diferentes malaguetas (parece que ao fim-de-semana terá maior variedade). Tudo vegetariano, muito saboroso e só levemente picante. Para beber, um lassi salgado, à base de iogurte, ideal para acalmar o picante, e uma garrafa de água da torneira. À sobremesa trazem-nos uns bolinhos quadrados de farinha de grão, manteiga e açúcar; eu não costumo apreciar muito os doces indianos, mas estes eram óptimos! Para a experiência ser completa, pedimos ainda um chai, o chá com leite e especiarias que é servido a toda a hora na Índia.
Partimos com o estômago contente e muita vontade de voltar. À Cantina e, já agora, também à Índia.
22 Outubro 2013, Cantina da Comunidade Hindu, Lisboa
Cantina da Comunidade Hindu
Al. Mahatma Gandhi, Complexo Comunidade Hindu - 1600-500 Lisboa (mapa)
Aberta de terça a domingo, 12h-14h30 e 20h-22h (fecha às segundas)
Preço: 7,50€ a 10€ por pessoa

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Diá-Lu-gos #2

Uns minutos depois de lhe termos explicado que ainda não sabíamos se o bebé era menino ou menina...
Lu: "A Luísa quer uma menina."
Eu: "É melhor uma menina do que um menino?"
Lu: "Sim."
Eu: "Porquê?"
Lu: "Porque as meninas não são tanto pesadas!"

Estatisticamente correcto. Só espero que não tenha sido em sentido figurado...

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Bye Bye Kitty!

Até perto dos 2 anos, conseguimos manter a Luisinha desinteressada da televisão, mais por sorte do que por proibição. Regra geral, temos a televisão desligada; a Maria não liga peva e o pouco que eu vejo (5 para a Meia Noite, Governo Sombra e concursos de talentos de domingo à noite) passa depois de ela(s) ir(em) para a cama.

Mas lá veio o dia em que, aos primeiros DVDs oferecidos, o vício da televisão chegou. A colecção do Noddy até se vê bem e dá um jeitão quando preciso que a Luísa fique uma horita sossegada; aqui, a única coisa que me irrita um bocado é ela praticamente só querer ver repetidas vezes o episódio de Natal, de que já sabe metade das falas de cor. Já quando pede para ver o DVD da Kitty, aí é que começo logo a ficar com brotoeja! É que muito se fala sobre a violência dos desenhos animados de hoje em dia, mas subvalorizam-se os efeitos nocivos dos bonecos demasiado melosos... Claro que queremos as nossas meninas mimosas e meigas, mas tanto bilu-bilu pode transformá-las em Elmyras, a fabulosa personagem dos Tiny Toons que sufocava os amigos com afectos em sobredose.

Para ficar com os nervos à flor da pele, basta ouvir o genérico, que começa por "Olá Kitty, tão queridinha, olá Kitty, nossa amiguinha" e termina em "Olá Kitty, gatinha fofinha, tão lindinha". Não é de ir buscar a caçadeirazinha e espetar uns balaziozinhos na bichaninha? Enquanto o léxico da Luisinha não abarca termos mais complexos, a Maria e eu vamo-nos divertindo a cantar o genérico com uma letra bem mais gira: "...a aldeia da Kitty vamos dizimar/chacinar/trucidar..."
Em segundo lugar, o nome dos amiguinhos da Kitty é impronunciável, ou pelo menos insoletrável: tive de ir ver na net como se escreve Badtz-Maru, Cinnamorol ou PomPom Purin. Enquanto que no Noddy podemos transpor as personagens para a família (à falta de pai e mãe do Noddy, eu costumo ser o "Urso Rechonchudo", vá-se lá saber porquê), está fora de questão chamarmo-nos Badtz-Mary ou PaiPai Purin!
Por último, as histórias passam-se todas num mundo cor-de-rosa, onde os bonecos se divertem a tricotar, a beber chazinhos e a colher bagas na floresta. Uau... Voltem, Power Rangers, que estão perdoados!

Ironias do destino, a Luisinha recebeu nos anos uma bola da Kitty e todos os dias jogamos um bocadinho. E é para isso mesmo que a Kitty serve: para levar um bom chuto!

sábado, 19 de outubro de 2013

Arroz chau chau...

Este post só terá piada (muito relativa, claro) para quem passou por campos de férias e outras actividades juvenis afins, onde uma das músicas da praxe era qualquer coisa como Arroz chau-chau, arroz chau-chau, carne assada, carne assada com arroz chau-chau... Sopiiiinha, sopiiiinha, carne assada, carne assada com arroz chau-chau...

Pois bem, numa combinação improvável de restos no frigorífico, coube-me ao almoço tomar o gosto pela primeira vez a esse refrão tantas vezes repetido. E sopinha, também houve.

Diá-Lu-gos #1

Eu, a querer apressar o almoço: "Quem é que vai acabar a sopa primeiro: a Luísa ou o Pai?"
Lu: "Pode ser a Luísa e o Pai."

Toma lá que é para não incutires o espírito de competição na miúda, que vai ter muitos anos para isso...

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Família a crescer

Contra ventos e marés, apesar dos cortes e incertezas, a verdade é que precisamos de quem nos pague a reforma quando lá chegarmos, não é verdade? Vimos, por isso, dar o nosso contributo para reverter as estatísticas da natalidade já em 2014! 
Lá para inícios de Abril, se Deus quiser, a Luisinha terá uma nova companhia para brincar - e para aprender a partilhar, que bem precisa. Daqui a mês e meio saberei se ganho um aliado masculino ou se fico ainda mais rodeado (e bem) de mulheres. Escusado será dizer que estamos muito felizes!
Fotografia do rebento às 13 semanas (há 2 semanas atrás)

sábado, 12 de outubro de 2013

A dois graus da Malala

Conhecem a teoria dos seis graus de separação, segundo a qual entre cada um de nós e qualquer outra pessoa do planeta há, no máximo, 6 pessoas pelo meio? Ou seja, eu conheço A que conhece B que conhece C que conhece D que conhece E que conhece F, mesmo que esse F more numa ilha recôndita do Pacífico.
As redes sociais dão-nos uma amostra visual disto mesmo. Por exemplo, o LinkedIn diz-me que estou a 3 graus de separação de 7 milhões de outros utilizadores, logo o crescimento exponencial até ao sexto grau há-de abranger todos os utilizadores da rede.

Cá em Portugal, talvez por vivermos um país pequeno, achamo-nos sempre não a seis, mas a dois graus de qualquer pessoa. Quando conhecemos um estranho, procuramos logo um ponto de encontro - escola, local de origem, empregos passados - com alguém das nossas relações: "ah, então deves conhecer o..." E a verdade é que quase sempre conseguimos mesmo fazer essa ligação! Se o mundo é pequeno, Portugal é uma ervilha.
Quando vivi em Londres, apercebi-me que essa abordagem inicial é muito nossa e que, quando a aplicamos a estrangeiros, roça os limites do razoável. No cúmulo da inocência, uma amiga que me foi lá visitar perguntou à minha flatmate indiana se porventura conhecia (da Índia!) outro amigo nosso de Lisboa, que nasceu e viveu em Goa. Eu ri-me, mas noutras vezes não terei andado longe disto na procura de um suposto amigo comum que me aproximasse dum interlocutor.

Ao nível das figuras públicas, ainda é maior a diferença entre um país grande e o nosso cantinho à beira-mar plantado. Em 3 anos de Londres, nunca vislumbrei ninguém da realeza, do espectáculo ou do desporto, e era óbvio que esses mundos não tinham qualquer cruzamento com as "pessoas comuns" com quem eu convivia na universidade ou no trabalho. Cá é o contrário: artistas, políticos e desportistas cruzam-se connosco com toda a naturalidade no Chiado ou nas Amoreiras, e a probabilidade de conhecermos um primo ou amigo de qualquer famoso é muito maior. E, para não dar o exemplo mais nebuloso do "arranja-me um emprego", posso dizer que na angariação de fundos para causas sociais quase sempre a abordagem começa por aí: ver quem conhecemos na empresa X para conseguirmos uma reunião com o decisor Y, embora cada vez menos (e ainda bem) isso, por si só, seja garantia de uma resposta positiva.

Isto tudo para dizer que, no mesmo dia em que eu a tinha visto nesta inspiradora entrevista no programa do Jon Stewart e em que ela era tida como forte candidata ao Nobel da Paz, algures em Washington, o meu cunhado entrava no mesmo elevador que a Malala. Ela que está empenhada em ser O grau de separação entre as raparigas paquistanesas que querem ter acesso à educação e os mais poderosos do mundo...

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Diga 33

Eis-me chegado aos 33! Gosto muito de fazer anos e de fazer festa, por isso tirei o dia de folga, não para ir para a praia (esteve tempo para isso!) mas para ajudar na cozinha e nas arrumações - entre as duas famílias, tivemos cá 28 pessoas a jantar.
Ao segundo dia de regresso ao "infectário" depois da última quarentena, a Luisinha veio para casa com febre e dor de garganta, e festejou os anos do pai murchinha e de pijama, ela que estava toda excitada com a ideia da festa e que me tinha perguntado umas 20 vezes pelo bolo.

A marcar o dia, houve duas surpresas que me deixaram com  um enorme sorriso.
A primeira foi logo às 8 e meia da manhã, quando preparava a Luisinha para sairmos. Toca o telemóvel e dizem-me: «É o Tiago? Fala da Rádio Sim, só um momento que vai já entrar no ar!» E passados uns segundos estava à conversa live on air com o meu amigo José Manuel Monteiro, que além das manhãs da Sim apresenta o programa que eu preparo. Quantos anos fazia, como ia ser o dia e tal e tal... Muito bom!

Quanto à segunda surpresa, lembram-se de eu aqui vos ter falado do João Miguel Tavares? Há dias tinha oferecido o livro dele ao meu amigo Vasco e comentei que gostava mesmo do que ele escrevia, que já o tinha visto algumas vezes no infantário da Luisinha mas que nunca tinha tido lata para lhe falar. E precisamente hoje o Vasco e a Joana, também eles com um filho no mesmo infantário, cruzam-se lá com o JMT e pedem-lhe um autógrafo para mim. Além do autógrafo em si, que já tem muita piada, valeu ainda como empurrão: «agora tens mesmo de lhe ir falar!»  
Sem dúvida que os homens (também) precisam de mimo, e nada como um aniversário para um gajo ser muito bem mimado!

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Um ar mais crescido

Amanhã completo a muito simbólica idade de 33 anos. A idade de Cristo. Um terço de século.
Apesar das responsabilidades de pai de família, continuo a sentir-me nalgumas coisas um puto de 20. E não é só a frescura de espírito, são também coisas exteriores. Não me refiro, obviamente, aos 20 quilos que me distanciam dos meus 20 anos; nesse aspecto, devia ter mais cuidado para recuperar uma volumetria mais jovem. Estava, sim, a pensar na diferença de indumentária em relação à maioria dos pais com que me cruzo de manhã no infantário. Tenho a sorte de poder ir vestido para o trabalho como bem me apetece, o que, num tipo calorento como eu, significa andar metade do ano de calções e Paez. E isto, meus amigos, acreditem que me tira anos de cima!
Talvez por não ter essa obrigação nos dias comuns, dá-me gozo vestir um fato numa ocasião formal, e mais gozo ainda aquele lusco-fusco do casual-chic. No primeiro caso, a pinta de um gajo joga-se na gravata; no segundo caso, nos sapatos. E foi por aqui que investi no meu auto-presente de aniversário deste ano, que já recebi via Amazon. Já tive vários blogues, mas faltavam-me uns brogues. A Maria suspira cada vez que vê mais um par de sapatos a entrar em casa, mas foi mais forte do que eu...

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Uma Horta para Ser Feliz

O último livro que traduzi chama-se Uma Horta para Ser Feliz e ensina como se pode criar uma horta, urbana ou rural, qualquer que seja o espaço disponível. O grande objectivo do autor, Marc Estévez Casabosch, é levar as pessoas a voltarem a sintonizar com os ritmos da natureza. Ele, que se mudou com a família para o campo, onde produz tudo o que come, garante que é um caminho que o aproximou da felicidade.
O meu décimo livro traduzido foi o primeiro a ter direito a um evento de lançamento em Portugal. As traduções anteriores eram de autores americanos, ou do falecido Osho, pelo que era mais improvável trazerem-nos cá. Desta vez, a proximidade geográfica do autor (catalão) e a aposta da Arte Plural na sua promoção tornaram possível o evento.
Encurtámos um pouco as férias e lá fomos na quinta-feira passada (um livro sobre hortas só poderia ser lançado numa quinta!) à Cozinha Popular da Mouraria, um lugar muito cool, misto de integração social com hippie-chic, que nasceu da renovação daquele bairro. Tivemos direito a beberete orgânico, com um óptimo pão de azeite e refrescos à maneira! 
É inevitável sentir-me um pouco dentro da cabeça do autor enquanto traduzo um livro, por isso foi muito engraçado falar com o Marc. E também gostei de estar com a Joana, a editora que me vai distribuindo trabalho, com quem troco e-mails há 5 anos e só agora conheci ao vivo. Fiquei sobretudo contente pelo bom feedback do meu trabalho, porque traduzir é uma actividade que me dá muito gozo!

domingo, 29 de setembro de 2013

As minhas autárquicas

Com cerca de 12.200 listas a disputarem as 3 cruzinhas que cada um de nós hoje vai fazer (Câmara Municipal, Assembleia Municipal e Assembleia de Freguesia), num país pequeno como o nosso, é fácil conhecer vários candidatos.
Em Lisboa, António Costa tem sido sempre correcto e disponível em relação à Casa das Cores, e a vereadora Helena Roseta (agora cabeça-de-lista à Assembleia Municipal) tem apoiado o trabalho do projecto Sentidos, que trabalha com as pessoas sem abrigo, pelo que o meu balanço (parcial) é positivo; não fosse a (estúpida, mas real) leitura nacional dos resultados, e não estaria ainda indeciso quando ao meu voto. Fernando Seara é sogro de uma amiga minha, mas não lhe vislumbro qualidades políticas nem obra feita para merecer o meu voto. João Ferreira estudou na turma de um grupo de amigas biólogas, um ano acima da Maria, e foi namorado de uma delas.
Nas juntas de freguesia, o candidato a Belém pelo PSD (e actual presidente) é pai da minha amiga Rita. Em Arroios, um vizinho e colega de futeboladas é o número 11 da lista PSD/CDS. Em São Vicente, conheço o número 4 pelo PSD/CDS. Na nova freguesia da Baixa (Santa Maria Maior), um velho conhecido das campanhas pró-vida é candidato pela Plataforma pela Cidadania.
Em Coimbra, estou a torcer para que o pai da minha amiga Ana se mantenha à frente da Câmara; é talvez a disputa que sigo mais ansioso, pela importância da cidade, pela confiança no candidato e pelas sondagens que dão um empate PSD-PS. Já na freguesia de Cernache, o coração divide-se, porque os pais de dois amigos concorrem em diferentes listas para a Junta: um é numero 2 pela CDU, outro é número 11 pelo PSD.
Em Mafra, gostava que a Alice Vieira, que conheço há pouco mas de quem gosto muito, ficasse à frente da Assembleia Municipal, a que concorre pelo PS.
Na minha família, tenho 2 primas direitas a participar nestas eleições: a Gabi encabeça a lista da CDU para a Assembleia Municipal do Peso da Régua e a Becas faz parte da lista PSD para a Assembleia Municipal de Torres Vedras. Espero que ambas sejam eleitas!
Pela negativa, espero ter o prazer de ver o Menezes perder a Câmara do Porto para o Rui Moreira. Uma vez, a caminho da Colômbia, tinha umas horas de escala em Newark e, como não dava para ir ao centro da cidade, aproveitei para visitar um outlet perto do aeroporto; nesse lugar improvável, fui encontrar o Rui Moreira com o Rui Oliveira e Costa (então colegas no Trio d'Ataque) e mulher, a entrarem carregados de compras para uma limusina; tirando este episódio à "pato bravo", até tenho boa impressão do homem, mas é sobretudo a má impressão do populista Menezes que me faz preferir este desfecho. Tal como gostava que o Basílio Horta levasse um bom chuto em Sintra.
Tudo motivos para seguir os resultados, como sempre, vidrado aos ecrãs da televisão e do computador, logo à noite!

sábado, 28 de setembro de 2013

Vá para fora cá dentro - Parte IV, Beirã-Marvão

No último dia do passeio, ficámos a dormir num lugar muito especial. Quando procurava alojamento no Booking, nos distritos de Castelo Branco e Portalegre, houve um hotel que me chamou a atenção e, apesar de já conhecermos a zona, achei que não podíamos deixar de ir até lá. A estação ferroviária de Beirã, que servia Marvão e fazia a ligação a Espanha, foi desactivada em 2012 e um dos edifícios transformou-se na Train Spot Guesthouse.
À chegada, fomos calorosamente recebidos pelo Eduardo, um dos responsáveis, que mudou de vida e trocou Lisboa pela calma do campo. Por opção, não há televisão, apenas uma agradável música de fundo, bem portuguesa, a criar ambiente para a conversa na sala que era o restaurante da estação. A Luisinha entreteve-se com jogos e brinquedos, balançou na rede e fomos dar um passeio junto à linha férrea, hoje já sem movimento.
A cozinha também tem um óptimo aspecto e pode-se comprar comida e bebida, incluindo especialidades da região. O pequeno-almoço também é bastante simpático. Apetecia ficar mais tempo, mas tínhamos compromissos à nossa espera em Lisboa...
Aproveitámos para visitar Castelo de Vide e Marvão, duas vilas históricas lindíssimas, refrescámo-nos nas piscinas de Portagem e não resistimos a passar a fronteira para ir comer umas tapas a Valencia de Alcantara. No regresso a Lisboa, parámos para almoçar em Estremoz, na Gadanha Mercearia
E assim terminou o nosso périplo pelos caminhos de Portugal, com 750 quilómetros percorridos, a uma média tranquila de 5,4 litros aos cem.

Vá para fora cá dentro - Parte III, Castelo Branco

Como o tempo a piorar, fizemos um intervalo nas praias fluviais e fomos até à cidade de Castelo Branco, que nenhum de nós conhecia. Desta vez ficámos na Pousada da Juventude para poupar uns cobres.
Se a primeira impressão da cidade não foi a melhor, com aparentemente pouco para ver e um par de diálogos mais rudes com os locais, tudo mudou quando nos encontrámos com o nosso amigo Manuel C. A., avô dos nossos sobrinhos e ilustre albicastrense. Levou-nos a jantar a um simpático buffet, foi o nosso guia num tour noturno pela zona mais antiga e explicou-nos as alterações feitas pelo Programa Pólis (gostámos do novo Centro de Arte Contemporânea). Nada como ter um bom cicerone!
Visitámos também o Museu Cargaleiro, com telas, azulejos e cerâmica do autor, que é natural de Vila Velha de Ródão (distrito de Castelo Branco) mas viveu toda a vida numa quinta na Caparica, bem perto de mim. E não me importava nada de poder levar um dos seus quadros para casa!

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Vá para fora cá dentro - Parte II, Proença-a-Nova

Convencidos pela boa publicidade às suas praias fluviais, fomos até Proença-a-Nova, no distrito de Castelo Branco. Óptima estrada até lá, saímos da A23 para o IP8 e foi um tirinho. Ficámos no Hotel Amoras, um investimento feito há uma década pela câmara local, com a ajuda dos fundos comunitários, que já esteve nas mãos do Grupo Pestana e acabou por voltar para a Câmara. A viabilidade económica naquela zona deve ser um problema, como pudemos comprovar pelo facto de estarmos praticamente sozinhos no hotel, e com uma enorme piscina só para nós! 
Apesar de as nuvens dominarem o céu, o termómetro continuava acima dos 30ºC e o sol, quando espreitava, era forte. Escolhemos a praia fluvial de Fróia, classificada este ano pela Quercus como "Praia de Ouro", e, já sem surpresa, constatámos que a praia estava também por nossa conta. Quer dizer, além de nós havia à beira da água uma família de sapos, ao melhor estilo "We All Stand Together", e vê-los saltar foi um divertimento para a Luísa.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Vá para fora cá dentro - Parte I, Belver

Na nossa última semana de férias deste ano, decidimos ir conhecer algumas praias fluviais do interior, nos distritos de Castelo Branco e Portalegre.
Depois de hora e meia de autoestrada, nas calmas, saímos da A23 em Abrantes para começar simbolicamente o percurso mais bucólico na terra onde o meu Avô se fixou e onde o meu Pai e tios cresceram: o Rossio ao Sul do Tejo. Mais meia hora de caminho e chegámos à praia do Alamal, o nosso primeiro destino. Com o castelo de Belver e a linha de comboio a espreitarem do outro lado do Tejo, numa vista magnífica, ficámos no mais puro sossego - naquele local só havia mesmo a praia e o hotel do Inatel.
A água estava bem fresquinha, mas num dia com 36ºC soube muito bem! E se na tarde de domingo ainda partilhámos a areia com meia dúzia de pessoas, na manhã de segunda esteve mesmo por nossa conta! Aproveitámos também para um passeio de canoa, foram 4kms a dar à pagaia que fizeram as vezes do treino no ginásio; a Luisinha gostou tanto que adormeceu a meio...
O único senão do local foi não haver muitas opções de sítios para comer, tanto em Belver como em Gavião, as duas terras mais próximas. Mas os olhos também comem, e esta vista encheu-nos as medidas!

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Uma família às direitas, e às esquerdas também!

No sábado passado, lá fomos nós rumo a Famalicão, para o encontro anual dos Mesquitas. Para quem só agora sintonizou este programa: o meu avô materno, ele próprio um de dezassete irmãos, teve dezassete filhos, que deram origem a uma família de 250 pessoas (só Tiagos somos 5 e Isabéis 17!), e todos os anos nos juntamos na cidade de origem para um dia de convívio. Este ano éramos 149, o que dá uma taxa de participação de 60%, ao nível das últimas eleições autárquicas - pode não ser uma grande percentagem para umas eleições, em que todos votam (supostamente) perto de casa, mas parece-me excelente para uma família em que a maioria tem de se deslocar 50 a 350 quilómetros (fora os emigrados) para ir ao encontro dos restantes.
E por falar em política, tenho reparado (no Facebook, claro) que a família, cuja primeira geração era claramente mais à direita, está hoje representada em todas as cores do espectro político, do CDS ao PCP. Aliás, duas primas assíduas destes encontros não puderam ir este ano justamente por estarem em campanha como candidatas a assembleias municipais, por cores bem diferentes. Esta variedade é também uma riqueza, e a política não se sobrepõe à ligação familiar (veja-se os irmãos Portas e os primos Louçã/Gaspar).
Acima da política e dos laços de sangue, a fé cristã continua a ser essencial para a maioria de nós, está no ADN da família e não é de todo alheia ao facto de sermos tantos. Por isso, estes encontros começam sempre com uma missa, bastante participada, em que agradecemos este dom da união familiar dos Mesquitas e lembramos os que já partiram.
Esta é também uma ocasião para saber novidades dos primos, e ficámos a saber de mais bebés que vêm a caminho - já dizia o Outro, crescei e multiplicai-vos!

sábado, 7 de setembro de 2013

Uma questão de ritmo

Um tema que dá pano para mangas são as diferenças entre as duas famílias de origem de um casal. Pode não parecer o mais importante, e não é, mas pelo que tenho visto nalguns amigos é um dos factores que mais podem minar uma relação - já o Romeu se queixava! No nosso caso, felizmente, as diferenças são suaves e não há nada de muito estrutural. Diria até que há um certo paralelismo sociológico entre as famílias paternas e maternas de um e de outro.

Já diferenças de feitio há muitas, como é natural, e é giro dissecá-las em casal, mas não convém expô-las aqui à leitura de toda a gente, sob pena de perder o babysitting e os tupperwares no frigorífico! Mas há uma que, de tão objectiva e assumida por ambas as partes, salta à vista e não dá sequer polémica: uma diferença de ritmo!

Quem me conhece sabe bem que um dos meus maiores defeitos é a minha dificuldade (ou quase impossibilidade) em chegar a horas. Mas isto vem de um contexto... Na minha família, marcar hora para qualquer coisa é apenas uma vaga indicação de que é de manhã, à tarde ou à noite; não é para se levar à letra. Marca-se um almoço para as 2h, para as pessoas chegarem pelas 3h e estarmos sentados à mesa às 4h. Pode soar a exagero, mas é mesmo assim! Tudo sem stresses ou problemas de consciência, porque é um "código" que todos conhecemos e respeitamos. Se alguém se atrasa, é porque surgiu alguma coisa para fazer, e quem recebe fica agradecido porque também só começou a cozinhar e a arrumar a casa à hora que tinha dito às pessoas para virem.

Por seu lado, a família da Maria é o primeiro grupo de adiantados que conheci! A hora marcada funciona como o limite para se estar num sítio, e se nos atrasamos 5 minutos já estão a telefonar para saber onde andamos. Quando são festas em nossa casa, vêm mais cedo para ajudar nos preparativos, o que me apanha quase sempre com o banho por tomar e a roupa por trocar. Uma vez fomos passar um fim-de-semana em versão de família alargada (pais, avós, tios) e percebi que, para não os fazer esperar, tinha de comparecer a tudo 15 minutos antes da hora marcada.

O ritmo à mesa também é bem diferente. O gosto pelo convívio é o mesmo e a conversa flui de igual maneira nas duas famílias, mas os Albinos são de uma enorme eficiência na recolha dos pratos à última garfada, enquanto que nos Tavares pode haver um intervalo de meia hora entre o prato principal e a sobremesa, sem que ninguém estranhe. No lado da Maria, pelas dez, dez e meia, já está tudo a ir para casa, enquanto que do meu lado dificilmente se cantam os parabéns antes das onze da noite. Na semana passada, nos anos da Luisinha, os últmos convivas saíram de nossa casa à uma e meia da manhã... adivinhem quem!

Há algumas explicações possíveis, embora não esgotem o fenómeno. O avô materno da Maria é militar e o pai é um empreendedor, o que são percursos pouco dados ao engonhanço. Do meu lado, quase ninguém tem um horário de trabalho rígido a cumprir, pelo que a pressão do descanso é menor. Na família da Maria, os encontros são (pelo menos) semanais, o que torna esta dinâmica necessariamente mais rotineira e menos lazeira; na minha família, praticamente só nos juntamos nos aniversários, por isso tudo segue a lógica de "um dia não são dias" (a mesma lógica aplica-se ao teor calórico das sobremesas, que dava outro post).

Em resumo: para chegar a horas ao cinema, mil vezes os Albinos; para ir buscar a morte, que sejam os Tavares!

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Quando for grande quero ser como eles


Voltemos ao baú da memória... 
No final de 2001, o ano em que entrei para o MSV, fui ao Algarve fazer uma visita (a última) ao Pe. Roger, figura que em tão pouco tempo de convívio me marcou para a vida, e que estava muito doente na altura. Juntámos um grupo, fomos e viemos na mesma noite, no carro da Teresa, que também tinha feito parte do grupo de voluntários que mensalmente visitava Vaqueiros e Martim Longo.
Dias depois, num jantar de Natal, fiquei sentado frente à Teresa e ao seu namorado João (à data crítico de cinema do DN, se não me engano) e na altura da troca de presentes calhou-me em sorte um CD dos Lighthouse Family que o João sabiamente tinha "reciclado".
Creio que foram as duas vezes que nos cruzámos "em solteiros".

Algures em 2007, numa festa em casa dos meus cunhados em Londres, um dos expatriados conta que o seu flatmate (João Cepeda) ia voltar para Portugal para lançar a TimeOut Lisboa. Regressado também eu à pátria, torno-me fiel seguidor da revista e reparo que o João Miguel Tavares era o director-adjunto.

Verão de 2011. Por ter achado graça ao título e por saber que gosto de crónicas, a Maria ofereceu-me o livro Os Homens Precisam de Mimo, onde o João faz as suas "queixinhas sobre a vida doméstica" na perspectiva do homem-pai. Eu só estava casado há 1 ano e a Luisinha estava para nascer, mas o humor das crónicas e a forma aberta e descomplexada de abordar a vida familiar conquistaram-me e vi que tínhamos muitas coisas em comum. Descobri também que éramos vizinhos em Entrecampos. Um ano mais tarde, quando a Luisinha entrou para o infantário, percebi (pelo blogue Pais de Quatro) que era o mesmo infantário onde tinham passado todos os filhos deles, e que os mais velhos andavam agora na escola primária onde queremos que a Luisinha venha a andar. A juntar a tudo isto: a Teresa é médica, a Maria é enfermeira; o João é jornalista, eu quis (quero?) ser (sou?).

Apesar das afinidades e caminhos paralelos, temos uma diferença de meia dúzia de anos, 3 filhos e milhares de leitores, por isso digo (a brincar, entenda-se) que quando for grande quero ser como eles. Se não chegarmos a Pais de Quatro, que talvez seja pedir muito, que nos fiquemos pelos três. Se eu nunca chegar a viver da escrita (e certamente que nunca farei parte de um Governo Sombra), já ficarei contente por manter este tipo de tribuna, porque me revejo totalmente neste post do João em que diz "não gosto de cortinas pela mesma razão de que gosto de escrever sobre a minha família neste blogue: a banalidade da existência sempre me atraiu e a sua partilha é enriquecedora para os outros e para nós".

Hoje, primeiro dia de aulas no nosso infantário, quando eu saía depois de deixar a Luisinha (que se portou à altura e não fez grande fita, diga-se), lá estavam eles a deixar os filhos número 3 e 4. A mais nova, que entrou para a sala onde a Luisinha esteve até Julho, também fez anos na sexta-feira e fez centenas de quilómetros para poder festejar com a família toda. Até nisto...

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Comer Orar...

Hoje fui a um jantar e, por ser véspera do "regresso às aulas", a Maria ficou em casa com a Luisinha para a poder deitar cedo. Quando me fui despedir das duas, já deitadas na cama, a Luisinha, ao ver-me preparado para sair, levanta-se e diz:
- Eu vou ao supermercado!!
- Mas o pai não vai ao supermercado... - respondo-lhe a sorrir.
Ela pára uns segundos e riposta:
- Eu vou à missa!!
Moral da história: a Luísa é o "verbo ir" e o pai, na cabeça dela, sai de casa por mantimentos ou beatice. É isto.