segunda-feira, 28 de abril de 2014

Bem-vindo à Família!

O nosso Manel já faz parte da grande família sportinguista, que nisto da clubite mais vale não dar abébias para muita escolha. Esperar por uma idade em que ele já dissesse "ah e tal, mas o Benfica / o Porto é que ganha sempre" era um risco! Nada como educar para a paciência e explicar que nem sempre os melhores conseguem ganhar (porque o sistema isto e aquilo), mas nem por isso deixam de ser melhores. Porque sim.
Saudações Leoninas!

sábado, 19 de abril de 2014

A minha Páscoa

Quadro da nossa sala, oferecido pelo querido amigo João Ribeiro
Envolto na atmosfera natalícia em torno do Manel, foi quase de surpresa que a Páscoa me bateu à porta. De repente, estava a reviver a Última Ceia e o lava-pés, ontem a acompanhar a morte de Jesus e daqui a umas horas estarei a reacender a luz da Vida que triunfa sobre a morte, na mais bela missa do ano.

Se, no Natal, o Menino ainda consegue espreitar, tímido, dos presépios que resistem, na Páscoa (pelo menos a Sul) o crucificado passa quase despercebido entre o coelhinho e os seus ovos de chocolate. Eu até sou a favor do pretexto para atafulhar os putos em açúcar - estarei para o "anti-glicosismo" como o Miguel Sousa Tavares para o anti-tabagismo - , mas nunca gostei de coelhos, nem na cartola, nem no prato, muito antes de ser um animal politicamente impopular.

A existência do Jesus histórico é aceite por quase todos. O nascimento nas palhinhas e a morte na cruz são factos profusamente documentados e passam no crivo dos mais cépticos. Já a ressurreição ao terceiro dia, apesar dos escritos da época e do sangue dos primeiros cristãos que deram a vida pelo que viram e ouviram, custa mais a entrar, o que é humanamente natural (vd. Tomé).

Mas se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé, já dizia São Paulo. É este o mistério que esta noite revivo e que dá sentido à minha vida. É esta fé na ressurreição (na de Jesus e na minha) que me faz não depender a felicidade da saúde e da sorte, que nunca dominarei por inteiro e que têm prazo de validade. Não são as boas acções dos cristãos que me convencem, embora sejam um precioso testemunho, nem são as más acções dos cristãos que me afastam, embora sejam uma torpe pedra no sapato. Mas não podia ser doutra maneira, porque todos vivemos entre esses dois pólos e o caminho da santidade (isto é, da coerência com o que se acredita) não é fácil (vd. negação de Pedro).

A virtude e o mérito são importantes, e são comuns a crentes e não crentes, mas o que muda tudo é aquilo que vemos ao fundo do horizonte. Quem foi é Jesus para mim? Na Páscoa relembro que o mais importante, a vida eterna, já me foi oferecido pela entrega do Deus-Homem, e peço-Lhe que mo recorde sempre que o sofrimento me tolher a vista.

Há 5 anos

Fez hoje 5 anos que tirei esta fotografia em Antigua, no último dia de férias na Guatemala. Na véspera tínhamos estado no animado casamento do Roberto e da Marianne, que fora o pretexto da nossa ida.

Quando o Roberto nos avisou que ia casar, eu tinha regressado há um ano a Portugal, tinha tido um par de trabalhos precários e a conta bancária aproximava-se perigosamente do zero. A sensatez desaconselhava que gastasse na viagem, mas não quis abdicar de estar presente num momento único da vida deste grande amigo que fiz em Londres (o mesmo por quem há meses fiz 700kms só para passar um serão). Acabei por arranjar emprego mesmo antes da viagem, e até hoje não mais passei pelo desemprego. Várias vezes na vida tive estes sinais de que não me arrependeria de decidir com o coração.

Foram 10 dias muito intensos, como sempre que se junta este grupo de amigos luso-guatemal-colombiano, e foi lá que a Maria os conheceu. Passámos um fim-de-semana numa casa sobre o magnífico Lago Atitlán, onde acordávamos com esta vista...
Seguimos depois para o norte da Guatemala, onde visitámos, debaixo de um calor extremo, as ruínas de Tikal, uma das maiores cidades maias, que é Património Mundial da UNESCO. Estávamos por aqui na noite em que sonhei com o nascimento do meu afilhado Tomás e, ao acordar, uma mensagem no telemóvel dava-me a notícia de que tinha mesmo nascido!
Por fim, fomos para a pitoresca cidade colonial de Antigua, onde ia ser o casamento. Além da alegria de estar presente naquele momento da vida do meu amigo, com o privilégio de ser um dos padrinhos, foi uma festa em que a pista de dança esteve cheia desde o primeiro momento, e nós fomos os primeiros a entrar e os últimos a sair!
Por estes dias tenho-me lembrado muito desta viagem. Porque temos trocado mensagens, porque o Tomás fez 5 anos, porque morreu o colombiano García Márquez... e porque estamos a equacionar uma reunião deste mesmo grupo (desde a foto acima, reforçado com 6 crianças) lá para Setembro, em terras colombianas. Se é verdade que a brincadeira não sai barata e tudo à nossa volta diz que não é altura para grandes avarias, não é menos verdade que as oportunidades são para aproveitar e cheira-me que, uma vez mais, vamos decidir com o coração...

sábado, 12 de abril de 2014

Os dias no hospital

Muito haveria a contar sobre estes primeiros dias, mas, como dizia o outro, não tenho tempo. Enquanto nos primeiros dias depois do nascimento da Luisinha fui, em grande parte, um espectador babado, desta vez há muito mais coisas (práticas e emocionais) a gerir e menos tempo para relatos e fotografias. Mas não queria deixar de guardar aqui, por tópicos, algumas recordações do tempo passado no Hospital de Santa Maria, onde a Maria e o Manel estiveram até quinta-feira:

- Já não me lembrava de metade dos cuidados que é preciso ter com uma criatura tão pequena. Não me lembrava do cordão umbilical pendurado com uma mola, de limpar as necessidades com uma compressa molhada, ou do delicado que é para a mãe o começar a dar de mamar.

- Uma vez mais, saímos satisfeitos com o hospital público. Ao nível médico, ficamos mais descansados e de facto foi tudo "sem espinhas". Para estadia ao nível de hotel, temos outras oportunidades. Além de que é um descanso só haver 2 horas para visitas gerais... Eu podia estar entre as 13h e as 20h, o que é bastante razoável, sobretudo tendo a Luisinha em casa.

- Dentro e fora do horário, a Maria foi recebendo as visitas das colegas enfermeiras do seu serviço. Com o seu bom feitio, claro que gostou e não se importou nada, mas calculo que nem todas gostassem de ter colegas de trabalho a aparecer no quarto a meio das visitas da família ou de uma mamada...

- O quarto onde a Maria e o Manel ficaram tinha vista para o Estádio do Sporting. Querem melhor prenúncio do que este? Bem lembrado pelo meu amigo Nuno España, tratei de uma coisa importante logo no primeiro dia de vida: o Manel é o sócio 107.358 do Sporting Clube de Portugal!

- O registo da criança faz-se num balcão no próprio hospital, é muito prático! Ficou Manuel Francisco Albino Tavares. Manuel porque eu sou Tiago Manuel e porque sempre gostámos do nome; Francisco é um nome que também gostamos muito, que não poríamos como primeiro porque já temos um sobrinho e, tendo sido ideia da Maria, claro que aqui o papista aprovou. É o primeiro bisneto do meu avô Tavares com a prerrogativa de passar aos filhos o nosso apelido sefardita. 

- Na naturalidade, podemos escolher entre a freguesia do hospital e a da residência. Quando nasceu a Luisinha, morávamos na freguesia de Nossa Senhora de Fátima e obviamente que optei por lhe pôr a Nossa Senhora de Fátima no cartão de cidadão. Desta vez, como a nossa freguesia passou a chamar-se Avenidas Novas e a do hospital chama-se Alvalade, já estão a ver para onde pendeu o meu coração.
A nossa primeira foto de família a 4
Manuel, o Pensador
Quando a Maria voltou do lanche, encontrou-nos assim
Superman-el a sair do hospital

terça-feira, 8 de abril de 2014

Cenas de um nascimento

Hoje a Maria completava 40 semanas de gravidez, tinha consulta marcada para as 8h30. Estava de baixa há uma semana (sim, trabalhou nos Cuidados Intensivos até às 39 semanas!). Ontem brincámos a dizer que nasceria hoje, porque, tal como foi da Luisinha, ambos tínhamos cortado o cabelo e as amigas Francisca e Joana tinham vindo cá a casa na véspera. Adormeci a escrever mentalmente um post que hoje poria no blogue, a contar que já estávamos nas 40 semanas e que estava tudo a postos (entreguei tradução, deixei o trabalho sem grandes pendentes, a casa estava preparada e os avós maternos já tinham voltado do Brasil).

Acordou às 3 da manhã com contracções e foi aguentando. A Luisinha, como que a pressentir, acordou pouco depois, fez fita (agora acorda a meio da noite a dizer que não quer dormir mais), mas a Maria lá conseguiu voltar a adormecê-la, na nossa cama. Lá para as 6 da manhã, levantou-se, tomou banho e tomou o pequeno-almoço, nas calmas. Às 7h saiu A PÉ para o Hospital, convencida de que tudo iria demorar muito tempo, como as 12 horas do primeiro parto, e que eu teria tempo de acordar normalmente, preparar a Luisinha e levá-la ao infantário, e só depois ir ter com ela. Deixou-me este bilhete:
Note-se como primeiro vêm as instruções para preparar a Luisinha e só depois,
tipo pormenor, "vou directa às urgências... já te vou contando."
Acordei às 7h32, com o telemóvel a tocar na minha cabeceira, de um número desconhecido. «Estou a ligar-lhe do hospital, das urgências, a sua mulher já está aqui e vai subir para o bloco de partos, é melhor vir depressa.» Vieram-me à mente umas quantas asneiras, "só a Mary é que me faz destas..." Telefonei aos sogros, para virem depressa ficar com a Luisinha, e arranjei-me a correr. Fui para o Hospital a voar, de mota, a pensar "será que ainda chego a tempo?"

A senhora do guichet pediu-me para esperar que me chamassem e bitaitou: "se calhar já não vai poder assistir, como ela já entrou para o bloco de partos..." Como aprendi com o meu sogro a não me ficar com um "não", subi até ao piso do bloco, decidido a fazer marcação cerrada ao parto. Afinal ainda lhe estavam a pôr a epidural, já me chamariam. E assim foi: às 8h30 estava a vestir a bata verde para entrar na sala onde tudo se ia passar. Dei conta de que não tinha comido nada e, como sou hipersensível a sangues e afins, receei que, nalgum momento de maior tensão, pudesse cair redondo na sala de partos. Mas não, a Maria foi uma valente a fazer força e o Manel foi um despachado a sair, por isso nem deu tempo para mariquices! Às 8h55 ouvimos o seu primeiro choro e vimo-lo pela primeira vez!
Aqui fica a primeira foto. Não sendo fantástica,
ficará para a história como a primeira.
E assim foi, graças a Deus correu tudo bem e mãe e filho estão com muito boa cara, e na quinta-feira já devem ir para casa!
E cá está ele, já mais compostinho!
E aqui com os olhos abertos...

Tudo a postos!


sexta-feira, 14 de março de 2014

Terrores nocturnos

Há dias apanhámos um grande susto com a Luisinha. Na consulta dos 2 anos, entre um rol de coisas que podiam acontecer nesta idade, o Dr. Mário Cordeiro tinha-nos falado em "terrores nocturnos" e eu tinha assimilado como "ok, vai acordar de vez em quando com pesadelos". E já tinha acontecido um par de vezes ela chorar durante a noite, mas episódios curtos até voltar ao sono (ou, pelo menos, sem termos de acender a luz).

Sábado ficou cá um amiguinho a dormir, e passado uma hora de terem ferrado no sono ouvimos um berreiro no quarto dela. Ironia das ironias, estávamos nesse momento os dois no computador e eu tinha pedido à Maria para me mostrar no Facebook o famoso "Grupo das Mães", para me rir um pouco com o que por lá se pergunta (acho muito útil a troca de experiências, mas o detalhe e grau de exposição de algumas é qualquer coisa).
Para não acordar o Tomás, pegámos na Luisinha ao colo para a acalmar no nosso quarto, e foi aí que ficámos preocupados: ela só berrava "não" e "não quero", sempre a chorar, tentava afastar-nos, batia-nos quando nos aproximávamos, com os olhos abertos, como se estivesse a ver em nós os monstros do seu pesadelo; a imagem, sem querer chocar, era a de estar "possuída" e a sensação de ela não nos estar a reconhecer era desesperante. Quase tememos que rodasse a cabeça como a menina do filme! Lembrei-me então de a minha Mãe me contar um episódio em que estava à conversa com amigas, à noite, uma delas adormecer primeiro e de repente começar a falar com as outras, continuando, no entanto, a dormir; ou seja, eu sabia que era possível uma pessoa estar de olhos abertos e a falar (ou berrar), mas na verdade estar a dormir, e com isso tentei acalmar a Maria. Será que os terrores nocturnos são isto?, pensámos.

E era. Num momento de acalmia, vim confirmar o diagnóstico com o meu amigo Google, e curiosamente fui parar a um artigo do Mário Cordeiro no site da Pais & Filhos, que dizia: 

No terror nocturno, a criança grita – muitas vezes um autêntico grito de terror, mas ao contrário do pesadelo, em que o próprio está assustado, quem fica mais receoso, neste caso, são os pais -, senta-se, está agitada, parece estar a lutar contra monstros ou «possuída», às vezes quase alucinada. Mas não está acordada, como nos pesadelos.

Quando os pais se aproximam, a criança parece não perceber quem eles são e até os afasta, com comportamentos que parecem ilógicos. «Então nós estamos lá e ela parece que não nos quer!» - Quantas vezes já ouvi isso. O que acontece, no terror nocturno, é uma mudança do ciclo de sono, com um estádio que nem é de dormir nem é de acordar, uma zona cinzenta que não dá para perceber a realidade como é, mas que a inclui no sonho – e os pais podem parecer os hipotéticos monstros que a perseguiam. Tentar acalmar não resulta, para desespero dos pais – mas nunca se esqueçam que, por paradoxal que pareça, aquela figurinha a mexer-se, a gritar e a espernear, não está a sentir medo. Repito: um terror nocturno não é um pesadelo. Muitas vezes não fazer nada é a melhor solução e a criança volta a deitar-se e a dormir.

Li também que era mais frequente em momentos de maior cansaço (tinha passado o dia a brincar, sem dormir sesta) e de maior stress emocional, como o nascimento de um irmão. Bingo!

Entretanto, a Luisinha tinha acordado - isto é, de repente "viu a luz" e começou a responder normalmente à Maria, mas confusa e assustada. Não queria por nada voltar a dormir, embora estivesse podre de sono. Quando finalmente conseguimos que adormecesse, passou o resto da noite com uma respiração soluçante. Por isso recomendam que, nestes casos, em vez de os tentarmos acordar, os deixemos chorar à vontade, sem intervir muito, porque voltam a ferrar no sono por si - o sono de onde, na verdade, nunca saíram. Desta vez não era uma hipótese para nós, mas da próxima já sabemos como agir!

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

A fada Luísa

A Luisinha achou tudo um bocado estranho. Vestiu e despiu 20 vezes as roupas de fada até chegarmos ao infantário, estarreceu ao entrar no portão e ver um maralhal de mascarados em lutas de serpentinas no recreio (a foto foi tirada nessa altura), mas depois lá ficou divertida a brincar na sua sala.
Entre o diário apressar a Luisinha para chegarmos a horas (sem nunca o conseguirmos), a frágil qualidade dos adereços do chinês e a falta de jeito para compor asas, saia e penteado, ficou mais uma vez demonstrado que este pai não nasceu para Carnavais...

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Amadeu

O meu avô chamava-se Amadeu e teve 17 filhos. A minha mãe foi a sétima filha, aliás, a primeira filha depois de seis rapazes. O terceiro rapaz chamava-se Amadeu, nome que também deu a um filho, que por sua vez também tem um filho Amadeu.

A casa do Tio Amadeu era paragem obrigatória quando vínhamos ao Porto, e muitas vezes lhe "cravámos" a casa de Vila do Conde para ficarmos alojados nas vindas ao Norte. Pai de 10 filhos (um deles falecido com apenas 4 anos), avô de 16 netos e bisavô de 4-quase-5, gostava de números e datas, e tinha um gosto especial pelas coisas da família. Na última vez que dormi em sua casa, há 2 anos atrás, estava em pulgas com a publicação de um artigo sobre a nossa família numerosa na revista Sábado. E posso ter dado uma ajuda indirecta para o aumento do seu clã, ao juntar o meu amigo-quase-irmão Pedro com a sua neta Isabel.
Na semana passada, fomos alertados pelas filhas de que o Tio estava muito mal, e vim com a Mãe ao Porto fazer-lhe uma última visita. Já quase não falava, mas, ao ver-me, saudou-me como sempre nos saudava: «Ilustre!», com a engraçada dicção dos meus tios mais velhos, que trocam os "r" por "g". «Ilustgue!»

Fiquei também confortado pela dignidade de uns últimos dias passados em casa, sem tubos nem tratamentos inúteis, na companhia dos filhos que se revezavam para nunca o deixar só.

Além do conforto dos filhos, o Tio morreu segurando um pequeno crucifixo, que a minha Mãe lhe trouxe há dias. O mesmo que um filho seu segurava quando morreu, o mesmo que outra priminha minha segurava quando morreu, o mesmo que o meu avô segurava quando morreu. Curiosamente, depois de ser amparo nesses 3 momentos, o Tio teve a sageza de oferecer o crucifixo ao meu pai, meses antes da sua conversão (mais uma passagem).

São pequenos sinais e grandes exemplos que são fermento de Fé e tornam esta família mais forte, nas alegrias e nas tristezas. O Tio Amadeu foi, sem dúvida, alguém que soube viver centrado no essencial, e é esse testemunho que sobretudo lhe agradeço na despedida.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

A Magia de São João Bosco

Esta noite vou baldar-me a Alvalade (que seca isto de não sermos ubíquos, até porque me dava jeito um terceiro que ficasse em casa a traduzir) para ir a um espectáculo de magia na Igreja de São João de Deus, na Praça de Londres. Vamos sobretudo porque um dos ilusionistas é o meu irmão João, e pelo que vi numa rápida pesquisa sobre o Nuno André também é um grande artista.
O tema é a vida de São João Bosco, que, em criança, ajudava a família trabalhando como mágico, tornando-se por isso padroeiro dos mágicos (o dia da sua memória, 31 de Janeiro, é também o Dia Mundial do Mágico).
É às 21h15 e estão todos convidados!

Na ressaca do Valentim

Mesmo não ligando peva ao São Valentim, a verdade é que não resistimos a comprar uma gracinha para dar um ao outro.
A Maria apostou uma vez mais em roupa interior, e não duvido que a recorrente figura do Homer nos seus presentes, neste caso a brincar com a Maggie, seja uma analogia à minha proeminente... qualidade de pai extremoso, só pode!
Eu ofereci-lhe o livro "Felizes para Sempre e Outros Equívocos Acerca do Casamento", do pastor baptista, músico rock-folk-punk e blogger Tiago Cavaco. Vá, confesso, eu queria muito ler o livro e aproveitei a ocasião para me auto-presentear indirectamente, mas tenho a certeza que a Maria também vai gostar. 

É muito bom ser namorado e, garanto-vos, muito melhor sê-lo depois de casado! Não é só uma questão de papel passado, como dizem os cépticos, mas o assumir diariamente que queremos que o horizonte seja mais do que um mero "infinito enquanto dure". 
E não julguem que as coisas perdem a graça com o tempo. Dou-vos um exemplo fresquinho: depois de ter feito o turno da noite, a Maria chegou a casa hoje de manhã e apanhou-me na cama com outra. Não é que acabámos os três a tomar juntos o pequeno-almoço?!

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Premonições ao almoço

Desde que começámos a apertar mais o cinto, eu e os meus colegas de trabalho do MSV trocámos os menus económicos das tasquinhas da Baixa pelo ritual do almoço trazido de casa, aquecido no micro-ondas e comido em ambiente familiar, com mesa posta e tudo. Na maioria das vezes, acabo por ser anti-social e não participo na refeição conjunta, ou porque não levei almoço e desço antes ao café para um salgadinho, ou por desleixo acabo mesmo por saltar a refeição. 
Quando me junto aos demais comensais, a conversa é sempre animada, mas há dias houve dois episódios que me fizeram ficar com medo do próximo almoço.

Da primeira vez, estávamos em aceso debate sobre os nossos tipos de massa favoritos - esparguete, cotovelos e por aí fora -, quando alguém falou num tipo de pasta que se chama "radiadores". E mais ninguém sabia da existência de tal coisa, umas massinhas em forma de radiador do motor de um carro. Que coisa mais ridícula, lembro-me de pensar, e de até fazer a analogia com as massas fálicas (para despedidas de solteira, suponho) que se vendem na Ale Hop. Os radiadores seriam o equivalente para os nerds da mecânica. Nessa noite, abro o armário-despensa lá de casa, e o que encontro eu?
Ora bem, este pacote de radiatori que a Maria tinha encontrado em promoção no supermercado. China men, que coincidência!, pensei.

Passados dois ou três dias, uma amiga contava que, para limpar mais a fundo as paredes de casa - retirar as marcas dos móveis e dos quadros - tinha comprado uma "esponja mágica" e que tinha sido super-eficaz. E logo pensei com os meus botões que era uma dica a reter, para quando chegasse o momento - pelo qual todas as crianças passam - em que a Luisinha resolvesse fazer uma obra de arte nas paredes da nossa casa. 
Nesse mesmo dia, ao serão, a petiza apanhou-se sozinha no corredor por uns minutos, e quando demos por ela já tínhamos duas paredes ornamentadas por uma espécie de Mirós, sem termos de ir ao leilão do BPN. Lá lhe demos o devido raspanete, disfarçando a vontade que tínhamos de rir pelo disparate, e a Maria perguntou: "E agora, como é que vamos tirar isto?" Armado em Dona de Casa Perfeita, respondi logo: "Há umas esponjas no Continente que apagam tudo!" E, de facto, com a "Esponja Mágica" as paredes voltaram à sua alvura original.

Eu é que fiquei assustado. E se, no próximo almoço, começam a falar de doenças, ou do Benfica ganhar o campeonato, ou de ter animais em casa? Fico lixado... Pelo sim, pelo não, acho que vou almoçar sozinho por uns tempos.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Três anos e meio

Quando há bocado escrevi que tínhamos a mota há três anos e meio, fiz as contas por alto. Mas agora, quando a Maria me trouxe um chá na "caneca da Vespa" e a pousou numa base com motivos dos "lenços dos namorados" (tema dos convites e mesas do nosso casamento) é que olhei melhor para o calendário e vi que o nosso 31 de Julho foi há exactamemente 3 anos e meio!
Como podem ver, continuo a ser muito bem tratado, com direito a chazinho e tudo, para aquecer um serão de tradução pela noite dentro (se conseguir parar de escrever posts!). Espero estar a ser um marido igualmente atencioso. E, pegando nestes 2 objectos simbólicos, desejo que, pela vida fora, come what may, continuemos a ser bons namorados e que continue "tudo a andar de mota"!

Diá-Lu-gos #4

Eu no portátil a traduzir, a Luisinha sentada na cadeira ao lado, a fingir que estava a falar ao telemóvel com uma Carolina que eu não estava a ver quem poderia ser (não há nenhuma Carolina na turma dela, pensei).
Lu termina o "telefonema" e diz: - Eu tenho três manas.
Eu: - Ah, sim? E quem são?
Lu: - Uma chama-se Carolina e a outra chama-se Matilde. (Afinal são duas manas e ela própria, logo três.) Elas moram na praia!
Eu, cada vez a achar mais que era pura fantasia: - Na praia? Que sorte!
Lu: - Eu também moro na praia. E depois vamos as três ao carrossel...
Caiu-me a ficha. Já foi há 5 meses, e ainda não voltámos a estar com a Carolina e a Matilde, que não moram na praia, mas são filhas de amigos com quem costumamos estar na praia. Mas dá para ver como, desde muito cedo, o Verão têm um lugar muito especial nas nossas memórias!

Grande Ruben!

E por falar na Glam, quando há uns meses lançámos o livro do Juca, a reverter para a Casa das Cores, tivemos como embaixadores da campanha a Carla Rocha da RFM, a Oceana Basílio (do Bem-Vindos a Beirais) e o Ruben Amorim do Benfica (todos agenciados pela Glam).

Estava previsto que fossem todos ao lançamento do livro, na KidZania, e que o Ruben Amorim visitasse a Casa das Cores por esses dias. Mas, na véspera do lançamento, houve aquele Benfica-Sporting que foi um jogão (4-3, embora a pender para o lado errado) e ele lesionou-se no joelho e não pôde estar connosco. 

Evitamos levar visitas à Casa quando as crianças estão, porque é o espaço de privacidade onde elas vivem e já tem corrupio de gente que chegue. O apoio das empresas é fundamental para a Casa funcionar, e muitas vezes pedem-nos para a visitar (e nós temos orgulho em mostrá-la), mas tentamos que essas visitas institucionais aconteçam quando os miúdos estão na escola, para que essa parte da angariação lhes passe mais ao lado. Claro que, quando sabemos que é uma experiência gira para as próprias crianças, abrimos a excepção, e este era um desses casos. Os miúdos ficaram com pena da primeira vez que o Ruben não pôde ir, porque são todos do Benfica, e reagendámos a visita para a passada sexta-feira.
E foi de uma simpatia total! Respondeu às perguntas dos nossos aspirantes a futebolistas, visitou o quarto pela mão deles, e distribuiu fatos de treino por todos. Discreto, humilde, brincalhão e atento a fixar os nomes de todos, e não só: passados uns dias, teve o bonito gesto de mandar uma mensagem de parabéns à O. no dia dos seus anos. Como ele bem disse, quando lhe perguntaram se era muito chato estar lesionado e não poder jogar, "sim, mas há problemas bem mais importantes do que esses".

Não lhe pude desejar muito sucesso desportivo a nível colectivo, já se sabe, mas a nível pessoal desejei que tivesse mais oportunidades para jogar no Benfica (merecia) e que fosse convocado para o Mundial. E não perdi a ocasião para a foto da praxe, com a Luisinha que também foi a reboque do pai. 

Lambreta Glamorosa

Quando casámos, comprámos uma lambreta LML verde, de fabrico indiano e estilo vintage. Aliás, ofereceram-nos a mota, foi uma "vaquinha" entre vários amigos. A surpresa para todos, pais e sogros incluídos, foi a mota estar já à nossa espera à saída da igreja e ter-nos levado para o copo de água. Só por isso, ganhou logo um lugar especial na história! Começou, portanto, por ser uma mota amorosa
Passados três anos e meio, e apesar do acidente, continua a ser um prazer guiá-la todos os dias, faça sol ou faça chuva, de Entrecampos até à Baixa, e onde mais a vida nos leva. Tem sido mais a mim do que a nós, porque gravidez e maternidade não ligam bem com motas.

Às vezes, nos semáforos, perguntam-me se a mota é antiga e explico que não, que foi comprada nova há pouco, mas que segue o molde da Vespa PX, que existe desde 1977 (a fábrica indiana teve uma parceria com a Piaggio até 1999, daí as afinidades e acessórios intercambiáveis).
Outras vezes, a coisa tem ainda mais piada. Uma vez, no Chiado, uma equipa da RTP pediu-me para fazer uns takes da mota, para encaixar numa reportagem sobre a zona. E agora tornou-se estrela fotográfica!
Por baixo do MSV são os escritórios da Glam, uma agência de celebridades com quem temos tido uma óptima relação: alguns famosos agenciados pela Glam têm dado a cara pelas nossas campanhas e, de vez em quando, podemos retribuir esse favor. Hoje, quando saía do prédio para almoçar, estavam 4 jovens modelos de gabardine e um fotógrafo à procura do melhor cenário, e perguntaram-me: "Esta mota é sua?" Logo me dispus a pô-la na posição mais conveniente, e lá os deixei na sessão fotográfica. Fico à espera de ver o resultado! A nossa mota é mesmo glam-orosa!

Tem razão, Tia Dada!

Desde os tempos do blogue de Londres, precursor deste, que tenho nas mães de duas grandes amigas, possivelmente, as mais fiéis e críticas leitoras. Digo "tenho", no presente, porque acredito mesmo que a Tia Kikas, lá em cima, nalgum intervalo entre as conversas "face a face" e o olhar pelos queridos filhos e netos, se continue a divertir com estas minhas postas de pescada (e continuo a sentir a sua boa pressão para escrever). Por sua vez, a Tia Dada não teve pejo em desancar-me na caixa de comentários do último post, a exigir-me mais assiduidade... e fez muito bem! Ora cá estou eu, que também sou leitor de dezenas de blogues e sei que tem muito mais piada chegar aqui e ter qualquer coisa nova para ler.

Pois bem, estou na recta final de uma tradução mais comprida (e interessante), que funciona mais ou menos como o mercado de transferências no futebol: depois de semanas a engonhar, nos últimos dias pingam todas as contratações (isto é, as páginas saem à velocidade da luz). E no MSV também estamos no mês em que se prepara a nossa maior campanha anual. Mais as entrevistas na rádio... Há dias em que me arrependo de querer tocar vários instrumentos ao mesmo tempo, mas ao mesmo tempo isto assim preenche-me muito mais! Mas vamos lá a isto, nada de desculpas!

E começo precisamente por fazer aqui uma mais que justa homenagem à Tia Dada e ao Tio Tó, à Ana e ao Filipe, que nos recebem sempre tão bem no seu distinto cantinho à beira-Arrábida plantado, como aconteceu uma vez mais este sábado. Não estou a dar graxa depois das galhetas que levei, é que é mesmo muito bom! Se o espaço já convida - a Luisinha, quando sabe que vai haver lá festa, começa logo a sonhar com o castelo insuflável e a piscina de bolas -, a atenção aos pormenores é tremenda e a mesa supera as mais ambiciosas fantasias pantagruélicas aqui do gordo (25 sobremesas, contei eu, vinte-e-cinco!, e não era só quantidade!). Não conheço mais ninguém que tivesse igual paciência para pôr de pé tais eventos... E o mais engraçado é que depois estão ali a conversar connosco, na boa, como se não tivessem suado as estopinhas para nós podermos usufruir daquele espaço e daquela mesa. Mas, muito mais do que os eventos, vale a proximidade, o partilhar das vidas e o sentirmo-nos em casa com eles. E já levamos 15 anos disto, o que não é nada pouco!

Desta vez não pude tirar fotografias, adiante vos contarei porquê, mas na festa anterior (que era mais especial, se assim podemos dizer) havia fotógrafa e saíram umas belíssimas chapas da nossa Luisinha, ora vejam:

E a fotografia mais gira que tenho com a Maria também foi tirada neste cenário, nesse dia:

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Praga, uma viagem "selfie"

Não é que seja preciso um pretexto para viajar, mas esta viagem a Praga surgia num momento especial: com a gravidez do Manuel a dois terços, era a (última) oportunidade para fazermos uma pausa a dois, antes de passarmos a ser quatro. 

Várias pessoas nos perguntaram se íamos para casa de alguém, e de facto, de todas as viagens que fiz com a Maria, era a primeira vez que não íamos ter com ninguém! Tínhamos ido a casamentos na Madeira, na Índia e na Guatemala, tínhamos visitado amigos nos Açores, em Londres, Barcelona, Berlim, Copenhaga ou Itália, e até na lua-de-mel no Brasil tínhamos passado uma parte do tempo com família e amigos. Mas desta vez íamos estar só nós, sem conhecer lá ninguém, num sítio que era novo para ambos. Uma viagem "selfie"!

Praga vinha muito bem referenciada e correspondeu por inteiro: monumental, bem estimada, fácil de percorrer, com boa comida, bons transportes e preços acessíveis. O nosso hotel, por exemplo, ficou a 19€ por noite, com pequeno-almoço incluído! Ficámos hospedados em Žižkov, um bairro com muitos restaurantes e bares, a 10 minutos de eléctrico do centro da cidade. Em 2 dias, visitámos o castelo, cruzámos várias pontes, subimos de funicular à colina de Petřín, assistimos ao desfile dos bonecos dos apóstolos no relógio astronómico da Praça da Cidade Velha, vimos o Menino Jesus de Praga e a Casa Dançante de Frank Gehry, e até descobrimos um café português para ver o Sporting! Ainda tentámos ir dar um passinho de dança, mas mal entrámos na discoteca que nos tinham recomendado sentimo-nos muito acima da média etária, e fugimos a correr dos "martelos" para nos refugiarmos num bar mais adequado à nossa provecta idade. E assim se passou o nosso fim-de-semana!

Noutras condições, ter-nos-ia sabido a pouco - não por ter ficado muito por ver, mas pelo gozo natural de andar no laré. Mas como tínhamos deixado cá a Luisinha, ainda que muito bem entregue, e a toda a hora falávamos dela, também soube muito bem o regresso!

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

No Porto

Aproveitámos o facto de a nurse não trabalhar no primeiro fim-de-semana do ano para dar um passeio até à Invicta. Como éramos 3 casais e 2 meninas, optámos por ficar num apartamento (aliás, um loft) cheio de pinta, super central, que nos ficou ainda mais barato que as "pensões estrelinhas" onde costumamos ir parar (9€/noite por cada adulto!). Recomendo vivamente: Look at me.
A Luisinha a descansar neste banco original
Vista do andar de baixo
A mezzanine 
Quando chegámos ao Porto na sexta, já passava das dez, mas ainda havia fila de espera no Café Santiago. Se não tivéssemos crianças, teríamos esperado Não resistimos e esperámos a nossa vez de provar (uma vez mais) aquela que foi eleita pela TimeOut Porto como a melhor francesinha da cidade, e valeu a pena! Vale sempre, quando a fome não é pequena...
Contaram-me de manhã que tinha havido trovoada forte e chuva ininterrupta durante a noite, mas nada que interrompesse o meu sono pesado. De dia pouco choveu, e aproveitámos para percorrer a cidade no Yellow Bus (obrigado, Johnny!), com paragem em Gaia para o almoço. Na Foz, o mar estava especialmente forte e tirámos várias fotografias no mesmo local onde, dois dias depois, esta onda arrastou carros e um autocarro.
Ondas grandes na Foz
O jantar foi em casa do Pedro e da Isabel, onde estou sempre em família. A Luisinha gostou muito de brincar com a prima Isabelinha, embora ainda lutem pelos brinquedos, e ao longo da semana disse várias vezes que queria lá voltar para brincar com ela... e puxar-lhe os cabelos!
Domingo foi dia de missa (qualquer que seja a igreja escolhida, é inevitável encontrar um primo), de visita às exposições de Serralves, de conhecer o novo Mercado do Bom Sucesso, de fazer as despedidas e rumar a Lisboa, na certeza de que muito em breve teremos novos motivos para lá voltar.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Senhor Extraterrestre

Estava a ouvir a Rádio Sim, depois de ter deixado a Luisinha no infantário, quando o meu amigo José Manuel Monteiro (que apresenta o "meu" Lusofonias) e a Inês Carneiro nos brindam com esta canção fantástica que eu desconhecia:
Aproveitei um sinal vermelho para mandar um sms ao Zé: "É excelente! Parece uma música do Herman..." Respondeu-me: "Sabes porque parece do Herman? Porque foi escrita pelo Carlos Paião!" Esse génio letrista, que além de escrever as suas músicas (há muito para conhecer, além da "Cinderela" e do "Pó de Arroz"), escreveu para o Herman (todas as do Serafim Saudade, a "Canção do Beijinho" e o "Bamos Lá, Cambada!") e para muitos outros. Até para a Amália!
E viva a Sim, que não sofre da ditadura das playlists e está sempre a brindar-nos com estas pérolas que enriquecem a nossa cultura!

Aqui fica a letra:

Vou contar-vos um história 
que não me sai da memória,
foi pra mim uma vitória 
nesta era espacial.
Noutro dia estremeci 
quando abri a porta e vi 
um grandessíssimo OVNI 
pousado no meu quintal.

Fui logo bater a porta, 
veio uma figura torta, 
eu disse: "Se não se importa 
poderia ir-se embora.
Tenho esta roupa a secar 
e ainda se vai sujar 
se essa coisa aí ficar 
a deitar fumo p'ra fora."

E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado.
Quis falar mas disse "pi", 
estava mal sintonizado.
Mexeu lá no botãozinho 
e pôde contar-me, então, 
que tinha sido multado 
por o terem apanhado
sem carta de condução.

"Ó senhor, desculpe lá, 
não quero passar por má, 
pois você aonde está 
não me adianta nem me atrasa. 
O pior é a vizinha 
que parece que adivinha 
quando vir que eu estou sozinha
com um estranho em minha casa.

Mas já que está aí de pé 
venha tomar um café, 
faz-me pena, pois você 
nem tem cara de ser mau. 
E eu queria saber também 
se na terra donde vem 
não conhece lá ninguém 
que me arranje bacalhau."

E o senhor extraterrestre 
viu-se um pouco atrapalhado. 
Quis falar mas disse "pi", 
estava mal sintonizado.
Mexeu lá no botãozinho, 
disse para me pôr a pau, 
pois na terra donde vinha 
nem há cheiro de sardinha 
quanto mais de bacalhau.

"Conte agora novidades:
É casado? Tem saudades?
Já tem filhos? De que idades?
Só um? A quem é que sai?
Tem retratos, com certeza. 
Mostre lá, ai que riqueza! 
Não é mesmo uma beleza? 
Tão verdinho! Sai ao pai.

Já está de chaves na mão?
Vai voltar pro avião?
Espere, que já ali estão 
umas sandes p'rá viagem. 
E vista também aquela 
camisinha de flanela 
p'ra quando abrir a janela 
não se constipar co'a aragem."

E o senhor extraterrestre 
viu-se um pouco atrapalhado.
Quis falar mas disse "pi", 
estava mal sintonizado.
Mexeu lá no botãozinho
e pôde-me então dizer 
que quer que eu vá visitá-lo, 
que acha graça quando eu falo 
ou ao menos p'ra escrever.

E o senhor extraterrestre 
viu-se um pouco atrapalhado, 
quis falar mas disse "pi", 
estava mal sintonizado.
Mexeu lá no botãozinho
só pra dizer: "Deus lhe pague."
Eu dei-lhe um copo de vinho
e lá foi no seu caminho
que era um pouco em ziguezague.