domingo, 18 de outubro de 2026

Há presentes que são muito mais do que um bilhete. Este veio de um grupo de amigos com quem vivi (e continuo a viver) tantos momentos importantes. Recebi o teu bilhete (neste caso, o vosso), e o prometido é devido: ontem lá estive no Campo Pequeno, com a Maria ao meu lado no concerto nesse dia.

O Rui Veloso entrou em força na minha vida em 1991, com o Mingos & os Samurais. Na preparatória da Trafaria, cantávamos o "Não Há Estrelas no Céu" e "A Paixão" à porta das salas e nas aulas de Moral, com o professor à viola. Tínhamos o prazer da transgressão ao cantar a merda na algibeira do Chico Fininho. E ríamo-nos a trocar a letra para "disseste que se eu fosse ao gás" e a jurar que o prometido é de vidro.

Mais tarde, com o grupo da Faculdade, era incontornável nas noites de cantoria no monte do Luís. "As Regras da Sensatez" virou hino. Chegámos a ir vê-lo ao Kartódromo de Évora, sempre cheios de speed. A primavera da vida é bonita de viver, e a minha teve muitas vezes esta banda sonora.

Pelo caminho, o concentrado de talento que foram os Rio Grande e os Cabeças no Ar. E sempre as letras do Carlos Tê, do "não se ama alguém que não ouve a mesma canção" à "chicla de mentol". O retrato perfeito do Porto (hoje menos abandonado), onde sempre gostamos de voltar, continua a ser o "Porto Sentido". Já não há canções de amor como havia antigamente? Ontem, no Campo Pequeno, provou-se que ainda há.

Num ano em que já perdemos o Luís Represas e o Jorge Palma, não podíamos perder a ocasião de ir ouvir o pai do rock português. Toda a alma tem uma face negra, e a saudade (e o passar da idade) pesa. Não temos todo o tempo do mundo, por isso ao menos que valha a pena. E valeu!

Aos amigos que nos proporcionaram esta noite: muito mais é o que nos une que aquilo que nos separa. Obrigado por continuarem comigo naquele trilho secreto, sob o olhar de Quem reina sobre todo este luzeiro.